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Artigo
HSPA: Peça-chave no quebra-cabeça da evolução tecnológica
das telcos móveis?
O aumento da competição para suprir crescente demanda por dados móveis, aliada à percepção de que um eventual processo de leilão de licenças para a prestação dos serviços de Terceira Geração (3G) se encontra próximo, tem suscitado o interesse do mercado pelas possíveis estratégias a serem adotadas pelas operadoras, bem como pelas tecnologias que deverão suportar essas estratégias. Entre essas tecnologias, o HSPA desponta como uma das mais promissoras.
Numa análise inicial, a evolução tecnológica das redes móveis brasileiras pode seguir alguns caminhos alternativos: players CDMA podem seguir o roadmap padrão, evoluindo rumo ao CDMA2000 por seus diversos passos intermediários (CDMA2000 1x EV-DO, 1x EV-DV e, finalmente, o CDMA 3xRTT, já considerado "3,5G"), ou fazer uma mudança mais radical, implementando um overlay GSM / UMTS sobre suas redes. Os players GSM, por sua vez, têm no roadmap desenvolvido pelo 3GPP o futuro de suas redes: a evolução para as redes UMTS já é hoje uma realidade em mercados mais avançados (ex.: Japão e alguns países da Europa).
A base do UMTS é a tecnologia W-CDMA, que se posiciona como 3G no tocante à velocidade de acesso a serviços de dados. Para atingir as taxas de transmissão teóricas do CDMA 3xRTT, o 3GPP desenvolveu um "adendo" 3,5G ao UMTS, o HSPA (High-Speed Packet Access). O HSPA é composto tanto de propostas para uplink (HSUPA ou E-DCH) quanto para downlink (HSDPA) de alta performance. Hoje as operadoras concentram seus esforços em prover serviços de download de alto desempenho (um posicionamento adequado em relação ao perfil de tráfego das aplicações atuais, mas que, possivelmente, será revisto num futuro próximo), e por isso o HSDPA tem sido o centro das atenções entre os caminhos propostos pelo 3GPP. A disponibilidade de terminais UMTS compatíveis com as atuais redes GSM também torna o HSPA atraente: é possível oferecer serviços de dados de alta performance a apenas uma parcela dos assinantes (grandes clientes corporativos, por exemplo), mantendo a oferta GSM atual para o restante da base.
Em termos tecnológicos, o HSPA possui os principais atributos necessários ao desenvolvimento de serviços de próxima geração: elevadas taxas de transmissão (taxa normal da ordem de 1,5 Mbps, pico de até 14,4 Mbps) e amplo suporte ao TCP/IP (facilitado pelos mecanismos de controle de erros implementados). Essas características tornam a tecnologia uma excelente candidata a suportar a nova geração de VAS (os Serviços de Valor Adicionado que muitos consideram que no futuro serão a principal fonte de receita das operadoras) em desenvolvimento, incluindo funcionalidades como a extensão móvel das LANs corporativas (Virtual Office Environment), ferramentas de colaboração avançada (videoconferência multiusuários, whiteboards etc.), download de música (full track download), Mobile TV e Mobile VoD (Vídeo on Demand), jogos multiusuários online, aplicações baseadas na gestão de presença ou localização do usuário e todo tipo de serviço em tempo real com conteúdo fortemente atrelado à multimídia. Apesar de tudo isso, o HSPA ainda não é considerado uma tecnologia 4G, por não atuar num cenário puramente IP. Mesmo assim, por ser uma iniciativa do 3GPP, o HSPA encontra-se totalmente alinhado ao IMS (IP Multimedia Subsystem), considerado forte candidato à futura arquitetura de controle das redes móveis.
Além do desenvolvimento de novos serviços, o UMTS é parte da estratégia de expansão de capacidade de rede: técnicas otimizadas de alocação de freqüência tornam possível acomodar muito mais assinantes numa mesma faixa de espectro do que nas atuais redes GSM. Nesse quesito o HSPA também se destaca: em tese, uma rede UMTS com HSPA pode ter até o dobro de assinantes de uma rede similar UMTS W-CDMA sem HSPA.
No que tange à implementação, o HSPA é apenas um complemento à rede UMTS: é necessário que a operadora possua infra-estrutura UMTS já em funcionamento para que os benefícios do HSPA possam ser realizados. Basicamente, o rollout de uma rede HSPA inclui o upgrade de software (e possivelmente de hardware, para suportar o processamento adicional) das BTSs UMTS e a adoção de terminais compatíveis com o novo serviço de dados. Esses terminais hoje já se encontram disponíveis, tanto na forma de handsets quanto na de cartões para uso em computadores portáteis.
No Brasil, a implementação de HSPA estaria condicionada ao leilão das freqüências destinadas aos serviços 3G pela Anatel. No entanto, o 3GPP inclui na especificação do UMTS e W-CDMA o uso da faixa de 850MHz (bandas A e B no Brasil) – num cenário em que os Estados Unidos adotem o W-CDMA nessa faixa, os fabricantes poderão disponibilizar infra-estrutura de rede UMTS 850MHz em escala. Com a tecnologia disponível, as operadoras que possuam freqüências nas Bandas A e B (Vivo, Claro, TIM, Telemig/Amazônia Celular, CTBC, Sercomtel) poderiam lançar serviços 3,5G baseados em HSPA antes de seus concorrentes, sem investir em espectro adicional, complementando suas ofertas atuais.
Como sempre acontece durante o processo de maturação de uma nova tecnologia, o HSPA traz mais perguntas do que respostas, na forma das quase infinitas possibilidades de novos serviços abertas pelo padrão. Além disso, a modularidade do trabalho desenvolvido pelo 3GPP torna o HSPA apenas mais uma peça no quebra-cabeça da evolução das redes móveis rumo à próxima geração – encaixar essa peça de forma coerente no conjunto formado pelas novas tecnologias de acesso (e aí se incluem desenvolvimentos recentes como WiMax e WiFi Mesh Networks) está entre os principais desafios no campo da estratégia de tecnologia das operadoras móveis.
Luiz Faro é Consultor de Tecnologia e Negócios na Promon.
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