Seção: Tutoriais Operação

 

 
Histórico: Os Primeiros Grandes Vultos

 

As telecomunicações e a computação evoluíram vertiginosamente a partir da segunda metade do século XX. Mas o Brasil vem utilizando sistemas de telecomunicações elétricas praticamente desde que foram inventados, no século XIX. Já na pré-história das telecomunicações do país, dois grandes homens, o padre Roberto Landell de Moura e o marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, avultam como personagens notáveis, de dimensões universais.

 

Landell de Moura, um gaúcho, era dotado de clara inclinação para a engenharia, além da vocação religiosa — tanto que se ordenou padre depois de ter estudado na Universidade Gregoriana de Roma matérias relacionadas à sua vocação sacerdotal e também à física, à matemática e à biologia. De volta ao Brasil depois da ordenação, exerceu funções como sacerdote em Mogi das Cruzes e em Campinas, tendo se radicado em São Paulo.

 

Daí se tem notícias de seus experimentos com transmissão sem fio de sinais, entre a Avenida Paulista e o bairro de Santana. Procurou de várias maneiras, e sem sucesso, demonstrar ao governo brasileiro e ao empresariado local a utilidade e a viabilidade de seus inventos. Fez, inclusive, um pedido ao governo Rodrigues Alves para que fossem usados dois navios da Marinha Brasileira para demonstrar a possibilidade de comunicação mesmo sem visibilidade, com vantagens óbvias para a navegação, o que lhe foi negado.

 

A proposta foi considerada insensata e a ajuda foi recusada (em pedido semelhante, no entanto, feito na Itália, toda a frota da Marinha italiana foi posta à disposição de Marconi). O padre Landell, inconformado, embarcou para os Estados Unidos, onde, na segunda metade do éculo XIX, assistia-se a um surto de empreendimentos baseados em inovações tecnológicas.

 

Além da rede de ferrovias, extensas estradas de ferro varrendo e cortando todo o país, muitos inventos estavam sendo anunciados, patenteados e, sobretudo bem comercializados. As aplicações da eletricidade começaram a ganhar importância a partir dessa época, como a lâmpada incandescente, o telefone e, mais tarde,os sistemas de comutação telefônica manuais e automáticos.

 

O padre Landell de Moura patenteou seus inventos nos Estados Unidos, no United States Patent Oficce. Pela avaliação desse órgão não se tratava, como disseram membros do governo Rodrigues Alves, de “proposta de um maluco”. Landell de Moura voltou ao Brasil com três patentes, o que era um bom atestado da validade de seus inventos.

 

Mesmo assim, sua idéia de que fossem explorados por empresários locais não teve sucesso. O contexto brasileiro na época não era favorável a esse tipo de ousadia e tratava-se de uma proposta de explorar, naturalmente com algum risco, uma novidade que envolvia alta tecnologia para a época. O Brasil era “um país eminentemente agrícola”. Foi a mesma dificuldade que Paula Souza enfrentou quando da criação da Escola Politécnica de São Paulo.

 

Por transcrições das discussões havidas na Assembléia Legislativa do Estado, sabe-se que a oposição à criação de uma Escola Politécnica, proposta de Paula Souza, vinha, sobretudo, das áreas que achavam que o país devia assumir sua condição de país agrícola e não perder tempo “com iniciativas como a proposta de Paula Souza”.

 

É difícil entender como, no século XIX, razões dessa natureza tenham sido invocadas quando surgiu um padre com um invento extraordinário, embora de difícil compreensão para o comum dos mortais e que realmente significava uma revolucionária inovação. Na retrógrada Campinas da época, essa sim uma cidade essencialmente agrícola, o padre Landell foi considerado um feiticeiro, tendo por isso ocorrido a invasão da sua casa e a destruição dos protótipos e laboratórios onde estavam os inventos prontos e demonstrados.

 

O padre Landell não conseguiu sucesso empresarial no Brasil. Num certo momento, ameaçou fazer como Marconi e oferecer seus inventos à Inglaterra e empresas inglesas. Marconi não conseguiu sucesso com os empresários italianos e acabou transferindo para a Inglaterra as patentes da técnica da transmissão de sinais por ondas eletromagnéticas. Roberto Landell de Moura não é estudado e divulgado no Brasil como merece.

 

Tem poucos biógrafos e modestos levantamentos de documentos sobre seu trabalho.Sua obra demonstra que não se deve subestimar a inteligência, a criatividade e a competência dos técnicos brasileiros no cenário internacional. Cândido Mariano da Silva Rondon, por sua vez, foi o outro grande vulto das telecomunicações no Brasil.

 

Goiano de ascendência indígena, o relato de sua vida excitou a imaginação dos jovens adolescentes brasileiros da primeira metade do século XX. Misto de aventureiro, no sentido romântico da palavra, de realizador, de homem de ação, desbravou uma imensa área geográfica, percorreu 100 mil km e implantou linhas telegráficas até a Amazônia.

 

Fez, pela primeira vez, contato com tribos indígenas até então isoladas, ao mesmo tempo em que estendia linhas telegráficas em postes que ia plantando do Sul até o extremo Norte. Rondon realizou um trabalho de gigante, tido como da mesma dimensão, importância e dificuldade da construção do canal do Panamá.

 

Os relatos sobre contatos feitos por ele com os índios xavantes, bororós e outras tribos selvagens, algumas hostis, outras amigáveis, foram divulgados a partir de 1930 e deles se depreende o respeito de Rondon pelo índio e pela cultura índia, que o transformaram em um dos maiores indianistas brasileiros.

 

 

 

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