Seção: Tutoriais Telefonia Celular

 

 
Inovação I: GSM no Brasil

 

GSM no Brasil – A oportunidade de entrada

 

Durante uma reunião com o board da Siemens AG, em fins de 1999, o diretor de telecomunicações da filial brasileira da empresa alemã, Verner Dittmer, ouviu um categórico “não”. O executivo tentara, naquela reunião, obter o sinal verde da matriz para que a operação brasileira atendesse ao mercado latino-americano de telefonia móvel com equipamentos no padrão norte-americano CDMA, adotado por outros fabricantes brasileiros de celulares, mas fora da linha mundial de produtos da Siemens. “Não vamos mudar nossa estratégia de foco em excelência em uma única tecnologia, de aceitação dominante no mundo, só para participar de um mercado de dimensões ainda relativamente pequenas”, explicaram os conselheiros da empresa a Dittmer.

 

A Siemens havia identificado, com toda a razão, uma grande oportunidade no mercado brasileiro de comunicações sem fio, com potencial avaliado na época em US$ 10 bilhões [1], incluindo infra-estrutura e terminais móveis. Quando falou ao conselho da Siemens AG – uma das três maiores empresas de engenharia elétrica e eletrônica do mundo, com sede em Munique, na Alemanha –, a empresa estava fora desse mercado. O motivo? O Brasil havia seguido, desde a introdução da telefonia móvel no País, o modelo norte-americano de uso do espectro de radiofreqüência. As duas tecnologias de segunda geração (2G) da telefonia celular – ou seja, as duas tecnologias digitais – adotadas eram o TDMA e o CDMA, inventados nos Estados Unidos [2]. O sistema europeu GSM não tinha presença no Brasil. As faixas de freqüência em que a tecnologia européia opera não estavam disponíveis para a telefonia móvel. Mas, graças em grande parte pelo esforço que seria feito pela Siemens, a situação mudaria.

 

Além da negativa, Dittmer recebeu da matriz um desafio: “Volte para casa e cuide de introduzir o GSM no seu País. Nós vamos lhe ajudar nessa missão”. Única tecnologia de segunda geração adotada na Europa, o GSM é o sistema celular mais usado no mundo até os dias atuais. A Siemens concentrara nele seus investimentos em pesquisa e desenvolvimento da área móvel. Em 1999, havia duas operadoras por área de atuação no Brasil, chamadas Banda A e Banda B. O regime de duopólio terminaria em 31 de dezembro daquele ano e o mercado se abriria para uma concorrência mais ampla.

 

Alguns meses antes da abertura do mercado para uma concorrência mais ampla, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) anunciou que leiloaria novas freqüências, chamadas Bandas C e D, garantindo espaço aéreo suficiente para atrair um terceiro ou até um quarto competidor [3]. As novas licenças foram batizadas Serviço Móvel Pessoal (SMP), inspiradas no Personal Communications System (PCS) norte-americano. A decisão foi uma resposta do governo ao crescimento da demanda por comunicações móveis, que dava sinais de ser bem mais vigorosa do que inicialmente prevista pela agência reguladora. Ao lado de outros fabricantes europeus, a Siemens viu aí a chance de trazer a tecnologia GSM para o Brasil, uma das duas opções da Anatel para as Bandas C e D.

 

Em 3 de dezembro de 1999, a agência reguladora iniciou a Consulta Pública N.º 198, com o objetivo de promover um amplo debate sobre a faixa de freqüência a ser usada na Banda C e D. O documento deixava claro que a disputa seria entre as faixas de 1,9 GHz, adotada pelos EUA para o seu serviço PCS, e de 1,8 GHz, adotada pela União Européia para o GSM. Inicialmente prevista para terminar em 17 de janeiro de 2000, a consulta acabou se estendendo até junho de 2000, chegando a trazer ao País altos representantes norte-americanos e da Comunidade Européia, em defesa dos interesses de suas indústrias. O grande desafio da Siemens era fazer com que o conselho da Anatel elegesse a faixa de 1,8 GHz, garantindo assim que todos os compradores das novas licenças adotariam o GSM.

 

Não existem sistemas na tecnologia concorrente, o CDMA, para a faixa de 1,8 GHz. A escolha seria decisiva para a entrada da empresa alemã na telefonia móvel brasileira. Ficar fora dela significaria perder a derradeira oportunidade de crescimento no mercado de comunicações móveis do País, na primeira década deste século. A escolha da faixa de 1,9 GHz, porém, não significaria a exclusão do GSM, pois existem sistemas na tecnologia que operam nesta freqüência, criados para os EUA e para países latino-americanos. O 1,9 GHz significaria, no entanto, a perda de parte das economias de escala para os fabricantes europeus, e a ausência de garantia de que todos os novos players brasileiros adotariam o GSM.

 

As motivações da Siemens na luta pela chegada do GSM no Brasil não se limitavam ao potencial de crescimento do mercado de telefonia móvel. Contribuía para a importância estratégica do momento a situação do mercado de redes fixas – onde a Siemens Brasil era líder no fornecimento de equipamentos e tecnologia para infra-estrutura –, que apresentava sinais de saturação, com taxas de crescimento muito pequenas.

 

Parte das operadoras e da indústria não defendia a entrada do GSM, um terceiro padrão tecnológico. No que diz respeito às operadoras das bandas A e B, havia o interesse em manter o status quo competitivo. Com o CDMA e o TDMA em 800 MHz, elas já haviam conquistado expressiva penetração nos estratos socioeconômicos mais elevados do País. Na indústria, todos os concorrentes da Siemens no País Ltda., com exceção das européias Nokia e Alcatel, apoiavam o CDMA ou tinham adotado uma postura “estou preparado para qualquer tecnologia”.

 

Por causa disso, a Siemens Ltda. decidiu contrariar suas convicções pró-GSM e, naquela reunião de 1999, propor ao conselho de administração da matriz que a filial brasileira trilhasse o mesmo caminho da maioria dos seus concorrentes. Assim, com o apoio do presidente Hermann Wever, Dittmer preparou um plano “CDMA na Siemens” de âmbito global para ser apresentado ao board, em Munique. Na realidade, a reunião acabou acontecendo em Boca Raton, Flórida, nos EUA, e a resposta negativa do poderoso conselho de administração da Siemens AG já nos é conhecida.

 

Pouco depois de seu regresso a São Paulo, Dittmer assumiu a coordenação do Projeto GSM, que tinha como missão convencer a Anatel a aprovar a faixa de 1,8 GHz para o SMP. A segunda missão do executivo, caso o projeto fosse bem sucedido, seria participar da formulação estratégica para a entrada da marca Siemens Mobile no mercado brasileiro de equipamentos e terminais GSM. Era uma tarefa que exigia tempo integral de um colaborador com excelente nível de relacionamento e prestígio junto à liderança política do setor de telecomunicações do País. Por isso, Wever não hesitou em transferir as responsabilidades na condução dos negócios de telecomunicações da empresa para Aluizio Byrro, atual vice-presidente da Siemens no Brasil, liberando Dittmer para sua nova e última missão na empresa. O executivo estava próximo de alcançar seu tempo de aposentadoria compulsória, sempre rigorosamente cumprido na Siemens.

 

Ele tratou logo de arregimentar os engenheiros Mario Baumgarten e Yuri Sanches, ambos pertencentes a um grupo de 15 profissionais especialistas em comunicações móveis que fora estrategicamente preservado pela empresa, de um total de 40, havia alguns anos. Estávamos no começo de 2000 e a Anatel havia prometido emitir uma decisão sobre a Banda C e D nos próximos meses. Não havia tempo a perder.

 

 

Referências

 

[1] Desde 1999, o mundo assistiu a uma explosão das comunicações móveis. Em 2003, o setor movimentou entre US$ 250 bilhões a US$ 280 bilhões em todo o mundo. (Fonte: UIT, Genebra, Suíça). No Brasil, a situação se desenvolveu da mesma forma. O País vem experimentando expressivas taxas de adoção das comunicações móveis nos vários estratos sociais. Em julho de 2005, o total de celulares no País estava em 76,6 milhões, com uma taxa de crescimento de 42% em 12 meses (Fonte: Anatel). Em 2003 as operadoras celulares brasileiras faturaram perto de US$ 8 bilhões. O comércio varejista de terminais e os gastos das operadoras com expansões da planta instalada superaram US$ 2 bilhões.

 

Tabela 1: História Recente da População Global de Usuários de Comunicação Móvel Digital.
Tecnologia Dez/03 Mar/04 Jun/04 Set/06 Dez/04 Cresc. em
2004
Cresc. em
2004 (%)
Share Cresc.
em 2004
Share de
Base
CDMA 186,7 199,4 212,6 223,6 236,3 49,6 26,6% 15,4% 14,0%
GSM 9917 1051,5 1114,2 1188,4 12637 274,7 277% 85,2% 74,9%
iDEN 16,5 17,2 18,0 18,8 19,6 3,1 18,9% 1,0% 1,2%
PDC 61,8 61,4 60,8 59,4 58,7 -3,1 -5,0% -1,0% 3,5%
TDMA 109,1 105,5 1027 984 917 -15,4 -14,1% -4,8% 5,5%
3GSM 2,7 4,3 7,3 11,3 16,2 13,6 505,3% 4,2% 1,0%
Global Digital
Mobile
1368,6 14393 1515,6 1599,9 1688,2 319,6 23,4% 100,0% 100,0%

 

[2] As operadoras das bandas A e B, as primeiras licenciadas pela Anatel operavam na faixa de 800 MHz, com as tecnologias CDMA e TDMA. No final de 1999, o CDMA era usado nos EUA, México, Argentina, Coréia do Sul e alguns países africanos. Embora inovadora, a tecnologia é fechada e proprietária. No preço dos equipamentos CDMA estão embutidos royalties à detentora dos direitos intelectuais, a empresa norte-americana Qualcomm. Já o GSM é aberto e não-proprietário, e conta com múltiplos fornecedores de componentes para os equipamentos, que, além de não pagarem royalties, usufruem das economias de escala resultantes de sua maior presença no mercado mundial. Em 1999, o GSM era usado por 250 milhões de pessoas num total de 385 milhões em todo o mundo (65%). Em 2004, alcançou 1,3 bilhão de usuários num total de 1,7 bilhão (75%) (Fonte: GSM Association).

 

[3] O espectro de freqüências eletromagnéticas é um bem público e, como tal, tem seu uso controlado pelo Estado, através da Anatel. O valor econômico da faixa de freqüência concedida pela Anatel a uma operadora aumenta na medida em que o avanço tecnológico viabiliza seu melhor aproveitamento. Ou seja, permite maior número de usuários sem prejuízo da qualidade da prestação de serviços. Ao colocar em leilão o uso de uma faixa de freqüência, a Anatel garante sua prévia “limpeza” – transferindo para outras faixas eventuais serviços correntes – e seu uso exclusivo pelas operadoras qualificadas para a exploração de determinados serviços públicos, por determinado prazo e em determinada região geoeconômica. No Brasil, o prazo de concessão típico é de 20 anos, com possibilidade de renovação.

 

 

 

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