Seção: Tutoriais Telefonia Celular
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A Vitória do GSM
A Siemens decidiu que sua atuação iria ter como base os seguintes pontos:
A argumentação mais comum contra o GSM, veiculada pela mídia especializada e em particular pela Associação Nacional das Operadoras Celulares (Acel), era a maior facilidade de roaming que seria proporcionada aos brasileiros pela faixa de 1,9 GHz, já usada na América do Norte (EUA, Canadá e México), na Argentina e no Chile. Isso era suportado pelos números do intercâmbio turístico e do volume das ligações telefônicas entre nosso País e as Américas. Esse e outros ataques foram rechaçados persistente e sistematicamente pelo Grupo GSM usando os seguintes argumentos:
Argumento 1: Para fazer frente à crescente demanda de espectro nas redes de segunda geração, alimentada inclusive pelos serviços avançados de dados, a faixa de 1,8 GHz, é a que oferece maior oferta de espectro disponível. A opção por 1,8 GHz libera a faixa de 1,9 GHz para a 3G.
Argumento 2: O Brasil optará por um mercado de dimensões globais e não apenas regionais. As economias de escala resultantes se propagam por toda a cadeia de valor chegando até ao usuário.
Argumento 3: A harmonização internacional das freqüências, combinada à padronização, implícita na proposta de valor da família de padrões GSM, estimula a competição e seus desdobramentos, como atração de novos investidores, mais rápida adoção dos serviços móveis, através da inovação, e redução de custos.
Argumento 4: O roaming com o GSM é bastante simples, e o assinante utiliza o seu próprio terminal (ou o cartão SIM), onde quer que esteja, sem quaisquer procedimentos complicados. O roaming internacional permitirá que o Brasil capte pela primeira vez receitas de roamers internacionais. Todo ano, há pelo menos 1 milhão de visitantes vindos da Europa, que, impedidos de utilizar os seus terminais GSM, contribuem para o País desperdiçar substancial ingresso de divisas. E, para os brasileiros, o roaming não seria apenas permitido para a maior parte do mundo, mas também para mais de 4 mil cidades norte-americanas e canadenses. Finalmente, há que se considerar que todos os novos recursos avançados, como o HSCSD (transmissão de dados a 57 kbit/s por circuito comutado), o SMS (Short Message Service) e o GPRS (transmissão de dados a 115 kbit/s por pacote), fazem parte do conceito de roaming de GSM.
Em meio à batalha que se desenvolvia, Yuri Sanches foi a figura que mais se destacou na imprensa. Participou de inúmeros debates, como o do Santander, que levou o Banco de Investimento a emitir uma nota oficial favorável ao 1,8 GHz e à adoção do GSM no País. Em maio de 2000, numa apresentação ao Grupo de Telecomunicações da Câmara Americana de Comércio (Amcham), Yuri Sanches resumiu a posição da Siemens na disputa 1,8 GHz versus 1,9 GHz: “A escolha da faixa de 1,9 GHz tende a manter o status quo, porque: a) Diminui a competição agora e no futuro; b) É melhor para quem está satisfeito com a situação atual; c) Reduz a chance do GSM no Brasil; d) Sem GSM o Brasil permanecerá alinhado apenas com as Américas, isolado do mundo. Já a escolha da faixa de 1,8 GHz é claramente a solução que otimiza espectro e: a) Assegura que o Brasil se integre ao mundo, através do GSM; b) Trará real competição (de fornecedores e serviços); c) Incentiva a entrada de novos investidores, novas fábricas e provedores de conteúdo; d) Principalmente, assegura que o Brasil deixará a faixa de 1,9 GHz livre para a Terceira Geração UMTS”.
Quanto a Baumgarten, a sua atuação se concentrou na manutenção do arcabouço da argumentação pró-GSM. Articulou juntamente com seus pares do Grupo GSM a resposta oficial à Consulta Pública N.º 198, que abrangia oito grandes tópicos, como competição, 3G, balança comercial, dimensões de mercado e roaming nacional e internacional. Baumgarten arregimentou e organizou a colaboração da GSM Association, do UMTS Forum e da Comissão Européia. Redigiu a maioria dos papers pró-GSM e banda C em 1,8 GHz. Participou de painéis e debates onde representava o UMTS Forum, tendo visitado em nome da instituição o ministro das Comunicações. Também foi chamado para debater em nome da Siemens, em ocasiões em que o conhecimento dos detalhes históricos e da Consulta Pública era requerido, como em um evento organizado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e pelo Ministério do Desenvolvimento.
No dia 21 de junho de 2000, o Ministério de Comunicações anunciou simultaneamente em Brasília e Washington a decisão da Anatel: por 4 votos contra 1, contrariando as expectativas dos principais analistas do setor, os conselheiros da agência haviam decidido pelo faixa de 1,8 GHz! O time formado por Dittmer, Baumgarten e Sanches sabia que essa era apenas a primeira batalha ganha. A Siemens Ltda. havia conquistado apenas o direito de competir. Outra guerra bem mais difícil acabara de se iniciar: a guerra pela participação do mercado brasileiro e latino-americano. Desta vez, a luta seria contra gigantes mundiais do porte da Ericsson, Nokia e Motorola, com uma tradição no setor de comunicações móveis bem mais antiga.
Referências
[13] Entidade responsável pela harmonização e desenvolvimento das telecomunicações no âmbito dos países europeus.
[14] O UMTS Forum, entidade internacional promotora do 3G/UMTS ou WCDMA – padrão global para serviços móveis de terceira geração –, realizou estudo comparativo entre a oferta atual e a demanda futura de espectro eletromagnético no Brasil a partir da projeção da demanda por comunicações móveis. Concluiu que o déficit a ser coberto será de 215 MHz até 2005 e de 282 MHz até 2010.
[15] O Brasil estaria se alinhando também a um bloco de países que inclui a China, África do Sul e muitas outras nações em desenvolvimento, e não apenas a um país com PIB per capita elevado (EUA). Na América Latina e Caribe não existia unanimidade na intenção da utilização da faixa de 1,9 GHz. A decisão do País a respeito poderia definir uma tendência na região na direção brasileira.
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