Seção: Tutoriais Operação

 

 
Gestão de Projetos de TI - I: Microeconomia e Projetos

 

Como evidenciado acima, o estudo de finanças corporativas auxilia na organização das informações do projeto e do mercado bem como fornece instrumentos destinados à análise de propostas com vistas à determinação do valor dos ativos. Ao fazer isso lida com os fluxos de caixa distribuídos no tempo. As informações são registradas no DEMONSTRAÇÕES DE RESULTADOS – instrumento que retorna estimativas do fluxo de caixa da operação.

 

Como relacionado na figura 13 e considerando a questão do valor descrita anteriormente, a modelagem de um projeto envolve o orçamento de uma série de parâmetros relacionados à análise de viabilidade do projeto. Esses permitem estimar o resultado de uma operação, avaliar os possíveis impactos sobre a composição de ativos, passivos e caixa da corporação bem como o acompanhamento as ações da gestão (baseline).

 

Figura 13: Orçamento de um projeto de investimento.

 

Particularmente e do ponto de vista microeconômico, a projeção de vendas envolve o dimensionamento de receitas. Essas se encontram relacionadas à estimação das quantidades (xi) e preços (pi) dos produtos e ou serviços a serem providos a partir da finalização do projeto. A partir dessas projeções, as receitas geradas podem ser dimensionadas por meio da seguinte expressão:

 

 

Ainda termos microeconômicos, a projeção dos custos de produção, ao depender de custos fixos (CF) e custos variáveis (CV), pode ser traduzida da seguinte forma:

 

 

Do tratamento desses drivers de custos, se origina uma série de curvas (custo fixo médio, custo variável médio, custo marginal, etc.) que permitem derivar a curva de demanda pelo bem ou serviço.

 

Então uma tarefa crucial é avaliar quais fatores afetam a demanda e oferta ou, em outros termos, verificar os fatores que interferem significativamente na determinação das receitas e custos da nova operação. Isso envolve determinar a curva de demanda e curva oferta, respectivamente. A rigor, a análise de mercado constitui um dos principais pontos de partida na análise e elaboração de projetos. No entanto, trata-se de um dos temas menos conhecidos do ponto de vista técnico.

 

O time do projeto deve considerar que, ao implementar um projeto, a corporação sempre atua nos mercados de fatores de produção. Isso também implica na avaliação desses por meio de emprego de instrumentos microeconômicos.

 

A rigor, a microeconomia fornece instrumentos destinados a descrever e analisar o comportamento das unidades de consumo e produção. Essas podem ser consumidores individuais, firmas, investidores, proprietários de fatores de produção (capital, insumos diversos, ativos financeiros, etc.).

 

Em suma, os instrumentos de microeconomia auxiliam no estudo do comportamento de agentes que tenham um papel no funcionamento da economia e que possam afetar o resultado econômico e financeiro esperado do projeto. Ao fazer isso, estuda como tais unidades tomam suas decisões. Também aborda a interação entre as unidades de consumo e produção, ajudando a entender a dinâmica de certos mercados e, em conseqüência, os processos de determinação de preço e quantidades transacionadas em mercados individuais.

 

Para avaliar o comportamento do consumidor ou da firma é preciso estimar as correspondentes curvas de demanda e oferta. A rigor, as curvas de demanda e oferta derivam da função demanda e função oferta, respectivamente. Estas estão associadas às estimativas traduzidas na teoria econômica (p. ex., o consumo é função da renda). A rigor, as funções dependem se um conjunto de variáveis.

 

Em geral, a função demanda (QD), definida abaixo, sofre muitas influências tais como, preço do bem (p), preço dos bens e serviços complementares (pc), preço dos bens e serviços substitutos (ps), variações na renda do consumidor (R), influencias especiais (expectativas, regulação, etc.), entre outras.

 

 

Já a função oferta (QS), apresentada abaixo, depende da tecnologia empregada (definida na função de produção), dos custos de produção (níveis de salários w, custo do capital r, etc.), preços dos bens relacionados, organização e poder de mercado, etc.

 

 

Nos dois casos (determinação da curva de demanda e oferta) o desafio é propor um modelo que capte todos os elementos significativos (por meio de técnicas estatísticas) e as correspondentes medidas de sensibilidade (representadas por meio dos betas e alfas das funções).

 

Por fim, o equilíbrio de mercado é determinado pela igualdade entre demanda e oferta:

 

 

Desvios em torno desse ponto de equilíbrio provocam ajustamentos no padrão de aquisições (consumidor) e estoques (firmas). Por exemplo, ceteris paribus (ou mantendo todas as demais condições constantes), excessos de oferta provocam o ajustamento por meio da redução da procura do consumidor e aumento de estoques de empresas que atuam em uma mesma indústria (definida como conjunto de empresas que ofertam produtos ou serviços muito semelhantes entre si). Nesse contexto, estas procuram reduzir os preços ou lançar promoções a fim de estimular as vendas (há alguma analogia com serviços de telecomunicações?). Esses movimentos restabelecem o equilíbrio entre oferta e demanda. Já no longo prazo, os desequilíbrios perenes são ajustados pelo processo de investimento e desinvestimento das corporações.

 

Exercícios de estática comparativa (manter tudo o mais constante e alterar o valor de uma das variáveis que afetam a oferta ou demanda) podem auxiliar na avaliação dos riscos de mercado (variação no poder aquisitivo, variação no preço dos insumos, efeitos da política tributária, etc).

 

As estimativas de demanda e oferta podem ser obtidas por meio de modelos de equações simultâneas, técnicas de regressão linear ou emprego de técnicas de séries temporais. Como sugerido, esses procedimentos pertencem ao domínio da econometria – parte da Ciência Econômica que combina teoria econômica, cálculo diferencial e estatística com vistas a predição e previsão.

 

Em contraste, a literatura de gerenciamento de projetos fixa suas abordagens em estimativas top down ou botton up, restringindo-as à modelagem de custos e prazos associados ao planejamento e programação do projeto. Pouco tem a dizer acerca dos benefícios e custos do projeto – esse um componente fundamental da análise do retorno para o investidor uma vez que interfere no orçamento do projeto.

 

Ao estudar as leis que regem o comportamento e interações entre consumidores e firmas individuais a microeconomia procura explicitar como os mercados operam. Esse entendimento auxilia no planejamento de recursos e permite verificar ex ante os efeitos de mudanças no meio ambiente que afetam as decisões (variações no budget do projeto, p. ex.).

 

Esses objetivos envolvem avaliar a sensibilidade da demanda ou da oferta em relação a:

  • Variação no preço do próprio bem ou serviço (elasticidade preço de demanda e elasticidade preço de oferta);
  • Variações na renda (elasticidade preço de renda);
  • Variações em relação ao preço de determinado bem (elasticidade preço cruzada).

Em suma, os instrumentos de microeconomia permitem avaliar os determinantes da demanda e oferta, propor um modelo matemático associado às respectivas funções, bem como estabelecer exercícios de estática comparativa em torno de mudanças nos condicionantes do comportamento de consumidores, firmas, etc. Tais análises também auxiliam nos processos de gerenciamento de custos e aquisições em projetos, uma vez que dão maior margem de certeza e reduzem a assimetria de informações entre clientes e fornecedores de insumos.

 

Como parte da Ciência Econômica, a microeconomia abrange os seguintes temas relacionados na figura 14.

 

Figura 14: Tópicos fundamentais em teoria microeconômica.

 

Como pode ser observado na figura acima, a microeconomia se subdivide duas grandes áreas: teoria do consumidor e teoria da firma (que compreende a teoria da produção e teoria dos custos de produção). O estudo dessas unidades de consumo e produção parte de dois axiomas básicos:

  • Os consumidores procuram maximizar sua satisfação no consumo sujeitos ao preço dos bens e às suas correspondentes restrições orçamentárias, ao fazer isso decidem quanto consumir de cada bem ou serviço;
  • As firmas objetivam maximizar lucros, ao fazer isso devem adotar certas tecnologias, definir a o volume de investimento e quantidade de fatores que serão empregados bem como a quantidade de bens ou serviços a serem ofertadas.

Inserida nesse contexto, a economia da informação aborda a definição do escopo de bens da informação, sua precificação, a estrutura de custos dos projetos, etc. A rigor, como enfatizam Varian, Farrel e Shapiro (2004) “high-technology industries are subject to the same market forces as every that other industries. However, there are particularly some forces that are particularly important in high-tech …” (VARIAN; FARREL; SHAPIRO, 2004).

 

A rigor, trata-se de um tema pouco estudado nas escolas de economia, engenharia, administração e MBA’s. As razões para tanto são as mesmas apontadas na seção inicial do tutorial.

 

Com efeito, a economia da informação trata de temas ligados a estratégias comerciais de compra e venda de serviços típicos da informação (hadwares, softwares, serviços, etc.). O escopo de abordagens é bastante amplo, como pode ser observado a seguir:

  • Estabelecimento de políticas de fixação de preços de bens e serviços (price information) da informação (hardware, softwares, serviços, etc.) ou fixação de estratégias de competição baseadas em preço (price competition), tais como diferenciação de preço (differential pricing) e identificação de grupos de consumidores com características comuns (group pricing) que podem resultar no empacotamento e ou “composição” de diferentes tipos de bens da informação (buldling and aggregation);
  • Estabelecimento de estratégias de competição baseadas na criação de versões (versioning information) visando alcançar efeitos de rede e economias de escala (network effects and increasing returns), externalidades de rede e complementaridades (information complements);
  • Maximização de retorno e gestão de direitos (rights management) para obter ou se precaver do aprisionamento e custos de troca (lock-in and switching cost).

Pode-se identificar alguma relação com cases recentes no mercado de telecomunicações?

 

Relacionados a questões de natureza microeconômica, adianto que há uma série de temas de interesse relacionados à eficiência econômica em mercados de bens da informação: direito de propriedade e otimização do valor; custos, divulgação e bens informação enquanto bens da experiência; relação preço, custo e valor; magnitude e implicações de custos amortizados; economias de escala na produção e economias de escala na demanda; fixação personalizada de preços, fixação de preços baseada em grupos e criação de versões; modelo da empresa dominante, liderança de custos e produto diferenciado; externalidades de rede e feed back positivo; liderança de preço e liderança de custo; auto-seleção, estratégias de criação de versões (demora, aborrecimento, conveniência, capacidade, velocidade, tamanho, resolução e design, diferenciação de interfaces, flexibilidade de uso, características e funcionalidades, abrangência. provisão de serviços e suporte), entre outros temas.

 

Em suma, o que deve nortear a ação das estratégias de atuação no mercado em torno de decisões de compra e venda de bens da informação é algum entendimento dos fatores econômicos de curto e longo prazo relacionados a esses aspectos.

 

Por exemplo, a aquisição de um aparelho celular e ou escolha de uma determinada operadora, envolvem diversos fatores como efeitos de economias de rede, serviços relacionados e outras complementaridades, portabilidade de número, efeito renda, lock-in e custos de troca, estratégia de criação de versões, entre outras questões.

 

Muitas das discussões associadas à economia da informação envolvem forças econômicas básicas (economia de custos, estudo da relação entre oferta e demanda, diferenciação de produtos, economias de escala, externalidades, etc.). O equilíbrio entre essas forças conduz ao sucesso ou fracasso das ações empresariais (tais forças interagem no tempo e no espaço). A partir do exposto, surgem as seguintes questões:

  • Quais as estratégias de configuração de produtos e custos em mercados de bens da informação?
  • Quais estratégias podem ser adotadas para atrair clientes e precificar bens da informação?
  • Em suma, quais estratégias contribuem para otimizar receitas ou interferem nas despesas no caso de aquisição?

Esses temas serão retomados no terceiro tutorial onde procurarei relaciona-los aos aspectos econômicos na avaliação do Case I-Phone da Apple.

 

Devido a sua complexidade e características, isso é particularmente importante em projetos ligados a bens da informação. Esses envolvem uma série de critérios aderentes ao ITIL (figura 15).

 

Figura 15: Aspectos envolvidos em investimentos em serviços intensivos em TI.
Fonte: Elaborado pelo autor com base no ITIL.

 

 

 

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