| TV por Assinatura: Estados Unidos |
O primeiro sistema de TV a cabo do norte-americano John Walson consistia de fios esticados entre postes, com amplificadores para aumentar os sinais transmitidos morro abaixo. Era uma antena de TV com uma linha de fios metálicos. Outros operadores inovaram melhorando a recepção, transmitindo os sinais de TV por meio de novos tipos de cabo utilizados pelas companhias telefônicas, como o cabo de quadras e o cabo coaxial.
O cabo permaneceu perto de suas origens por cerca de 20 anos nos EUA, trazendo o sinal de TV para regiões remotas onde não era possível a recepção pelo ar. O congelamento de novas estações de televisão entre 1948 e 1952 fomentou o crescimento do cabo nos primeiros tempos. Mais tarde, os operadores de cabo expandiram a recepção em pequenas cidades e em outra que apenas recebiam sinais das emissoras de rede, importando sinais distantes de estações independentes de TV situadas nas proximidades dos maiores mercados de TV.
Entre 1966 e 1972, os operadores de cabo foram afastados dos principais mercados por imposição da agência reguladora norte-americana, Federal Communications Commission (FCC), que, a esse tempo, tentava incentivar a implementação de estações locais de TV em UHF (canais 14 a 69) e de alguma forma, fortalecer estas estações. Para proteger as emissoras locais, os reguladores intervieram igualando a concorrência entre o cabo e a TV aberta por meio de restrições de sinais distantes e de programação duplicada.
Sem programação original o cabo não atraía suficientes telespectadores para justificar as despesas com a construção de sistemas de cabo. No final dos anos 60, muitos moradores de áreas urbanas já tinham acesso a diversos sinais transmitidos em broadcasting. Sem acesso às grandes audiências urbanas, não havia como justificar o desenvolvimento de programação original para o cabo. De tal forma, confinado às áreas rurais e sem programação original, a TV a cabo estagnou.
Uma solução para a dificuldade de programação foi oferecer filmes e eventos esportivos ao vivo em canais especiais. Os telespectadores norte-americanos, via cabo, foram solicitados a pagar uma taxa mensal adicional para assistir esses canais, surgia então a condição de TV por assinatura.
Em 1972 a FCC desenvolveu um novo conjunto de regras para a indústria de TV a cabo encaminhando o seu ingresso nas áreas urbanas. Mesmo restringindo o número de sinais distantes que poderiam ser transportados, a inovação regulatória mandava que cada sistema tivesse pelo menos 20 canais, o que permitiu ocupar os canais sem uso até então na programação inicial.
A Home Box Office (HBO) foi a precursora dessa facilidade ainda em 1972. Em 1975, a HBO estabeleceu a primeira rede nacional de TV a cabo ao transmitir uma luta de boxe em audiência nacional, via satélite. Em seguida promoveu o lançamento de filmes inéditos na televisão, popularizando a TV a cabo.
Também em 1975, Ted Turner, proprietário de estação de TV em Atlanta, colocou o sinal distante de sua estação, em audiência nacional via satélite, originando a idéia de uma superestação. Em 1976, uma nova lei de direitos autorais impôs taxas para importação de sinais distantes e também liberou os operadores de TV a cabo, em qualquer lugar, a inserir sinais distantes em suas programações. Em 1980, Turner lançou uma segunda rede, a Cable News Network (CNN), que se tornou um importante pilar de programação. Em 1982, havia três dezenas de sistemas via satélite disponíveis nas redes de TV a cabo nos EUA.
Com a TV a cabo oferecendo programação própria, grandes empresas que possuíam operadoras de sistema múltiplo (multiple system operators, ou MSOs), envolveram-se em uma disputa de altos lances pelo direito de transmitir por cabo para as grandes cidades americanas. Nessa época, as municipalidades outorgavam uma só franquia de cabo para certa região, mediante processo licitatório com lances competitivos. Em 1985, quase todas as principais cidades norte-americanas tinham passado pela guerra das franquias.
As conseqüências das disputas de franquia fomentaram uma reação desfavorável na política das autoridades municipais que demandaram nova legislação para controlar o cabo, que estava se tornando por si mesmo uma mídia de entretenimento popular. O Cable Communication Policy Act, de 1984, foi um compromisso de meio-termo entre as cidades e a indústria do cabo.
Ocorreu desregulação das tarifas, antes controladas. Em contrapartida, as cidades passaram a cobrar dos operadores de cabo uma taxa de franquia de 5%. Tendo permitido que o cabo sobrevivesse, o Congresso dos EUA protegeu sua decisão, proibindo as companhias telefônicas de possuírem sistemas de TV a cabo.
No final dos anos 80, a tecnologia de cabos coaxiais estava chegando aos seus limites fazendo os operadores de cabo se voltarem para o cabo de fibra ótica e assim transportar sinais dos head ends para as proximidades de seus assinantes. Se estendida por completo até o televisor, a fibra poderia teoricamente expandir as opções de canais para centenas, em vez de apenas poucas dúzias.
O cabo coaxial que chega até o aparelho de TV é o item mais caro a ser substituído, por serem as interfaces óticas ainda muito dispendiosas. Técnicas de transmissão digital fazem com que seja possível levar o cabo coaxial a novos limites por meio da compressão de sinal de vídeo. A mudança para a televisão digital ganhou um forte impulso em 1994, quando a FCC definiu um padrão digital para a televisão de alta definição.
Com o fim da regulação das tarifas, os operadores de cabo aumentaram seu faturamento e agregaram valor ao negócio. O chamariz da nova programação e dos lucros atraiu novos concorrentes desejosos em participar do mercado de TV a cabo.
Os operadores de cabo tiveram que enfrentar concorrência, dessa vez de outros sistemas de TV paga conhecidos como “TV a cabo sem fio” (wireless cable), como os sistemas de satélite de transmissão direta (direct broadcast satellite, ou DBS; depois inovado para direct to home, ou DTH) e os sistemas de distribuição multiponto multicanal (multichannel multipoint distribution system, ou MMDS).
No começo da década de 90, o negócio de cabo tornou-se vítima do seu próprio sucesso. O Cable Act, de 1992, trouxe de volta a regulação das tarifas, exigiu que as cidades norte-americanas abrissem as licitações de franquias de cabo para mais de uma operadora e ordenou que houvesse compensação para as emissoras pelo direito de retransmitir seus sinais. Para estimular a competição, as redes de cabo foram obrigadas a negociar com sistemas de distribuição concorrentes, tais como DBS/DTH e MMDS.
Em 1992 e 1993, após uma série de decisões nos tribunais e novas regras da FCC, o serviço de telefonia local foi aberto para competição. Muitas empresas de cabo anunciaram planos de serviço para telefonia. Algumas das restrições contra companhias telefônicas fornecerem serviços de vídeo e possuírem e operarem sistemas de cabo foram suspensas. A era de convergência da mídia tinha realmente iniciado no negócio de TV a cabo.
Desde o final do século XX, o cabo está presente em cerca de dois terços dos lares norte-americanos e fora do alcance de apenas 4% dos domicílios, a maioria em áreas rurais remotas. Quase todos os lares atendidos (95%) têm 30 ou mais canais, e um terço tem 54 ou mais. Nos anos mais recentes, o número dos que assistem TV a cabo cresceu, enquanto o número dos que assistem diretamente os canais de TV aberta (broadcasting) diminuiu.
Os EUA assim como, o Canadá têm um dos mais extensos sistemas de cabo do mundo. Em outros países a TV a cabo demorou mais tempo para começar, principalmente onde poderosas companhias telefônicas estatais e, em alguns casos, monopólios em transmissão pelo ar protegeram suas posições.
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