11/02/06

Em Debate Especial: TV Digital no Brasil

 

 

 

ISDB-T - Um Sistema de TV Digital para o Brasil

 

 

 

Murilo Pederneiras 

 

A concepção de cada um dos tres padrões de televisão digital utilizados atualmente nos vários países do mundo refletiu, de forma bastante clara, os requisitos de mercado vigentes à época de sua concepção nas regiões em que foram desenvolvidos.

 

Assim é que o padrão americano – ATSC, que foi o primeiro a ser concebido e desenvolvido, priorizou a necessidade de melhorar a qualidade do som e da imagem oferecidos pela televisão analógica, adotando como objetivo principal a televisão de alta definição – HDTV.

 

O sistema europeu – DVB-T, que veio em seguida, partiu da necessidade de resolver o grande problema do congestionamento do espectro no continente europeu e de propiciar aos telespectadores uma maior variedade na programação, que permitisse, a esses, uma alternativa à chatíssima programação característica das emissoras herdeiras dos dinossauros estatais de então. Para atender ao primeiro requisito, os criadores do DVB-T decidiram utilizar a modulação OFDM que, além de permitir a realização de redes SFN (Single Frequency Network) para economizar espectro, conferiam ao sistema uma flexibilidade substancialmente maior e um ganho de robustez significativo em relação ao sistema pioneiro. Para resolver o segundo requisito, os europeus adotaram como modelo preferencial a multiprogramação em SDTV.

 

O sistema japonês, concebido no final da decada de 90, foi confrontado com novos desafios, como por exemplo, a mobilidade e a portabilidade. Nesta época, já era inconcebível um sistema de comunicações que não permitisse aos seus usuários utilizá-lo onde quer que estivessem, parados ou em movimento. Dessa forma, além de utilizar a modulação OFDM, com todas as vantagens já detetadas pelos europeus, os japoneses decidiram adotar uma solução de divisão em 13 segmentos (modulação BST-OFDM), da banda de 6 MHz utilizada em transmissao de televisão, propiciando uma flexibilidade ainda maior, pela possibilidade de combinação desses segmentos de várias formas. Além disso, o sistema japonês lançou mão de ferramentas adicionais de correção de erros (time interleaver), que conferem ao sistema a robustez indispensável ao ambiente hostil da recepção em movimento.

 

É óbvio que todos os sistemas podem evoluir no sentido de procurar atender a novos requisitos à medida em que estes apareçam, mas é óbvio, também, que essa evolução pode ficar prejudicada pela inadequação das tecnologias e ferramentas adotadas na concepção original do sistema às soluções exigidas pelos novos requisitos. Por exemplo, um sistema que tenha adotado um tipo de modulação que não permita atender à flexibilidade exigida pelos diferentes modelos de negócio que a televisão digital hoje requer, ou um sistema que não tenha adotado as ferramentas que pudessem lhe conferir a robustez necessária em ambientes de recepção adversos.

 

O sistema ISDB-T utiliza a tecnologia exclusiva de modulação BST-OFDM que permite dividir a banda de 6 MHz em 13 segmentos. Esses 13 segmentos podem ser divididos em três grupos hierárquicos diferentes, que lhe conferem maior ou menor robustez, dependendo da aplicação a que se destinam. Um desses segmentos é reservado à transmissão para receptores móveis e portáteis, tais como celulares, PDAs e notebooks, com parâmetros de transmissão adequados a essa aplicação. Ao mesmo tempo e no mesmo canal, os outros 12 segmentos podem ser utilizados para transmissão para receptores fixos em HDTV e/ou SDTV.

 

Desnecessário se torna entrar em maiores detalhes sobre a superioridade técnica do ISDB-T, já sobejamente comprovada em todos os testes comparativos realizados até hoje. Basta dizer que, graças às suas características em termos de flexibilidade e robustez, o ISDB-T se adapta a qualquer modelo de negócio e, do ponto de vista puramente técnico, é o sistema que melhor atende às necessidades do país.

 

Com relação aos outros aspectos que estão sendo considerados na avaliação dos três sistemas de televisão digital, se alguma diferença houver entre os três sistemas, esta será favorável ao ISDB-T.

 

Um aspecto importante a considerar é a introdução, no ISDB-T, de tecnologias sugeridas pelos resultados do trabalho dos pesquisadores brasileiros envolvidos no SBTVD, entre as quais se destacam a tecnologia de codificação e compressão de vídeo MPEG-4 e o middleware. A ARIB, entidade responsável pelo desenvolvimento e evolução do ISDB-T concorda em agregar às especificações do ISDB-T aquelas referentes ao MPEG-4 e ao middleware brasileiro, de modo que estas passem a constituir opções do ISDB-T para aplicação em qualquer país.

 

Outro aspecto considerado de grande importância pelo Governo Brasileiro é o preço dos set top boxes a serem oferecidos no mercado.

 

O preço deste tipo de equipamento é função direta da “bill of materials” (custo dos componentes) e das facilidades disponíveis. O único item diferente entre os sistemas existentes é o módulo demodulador, que representa menos de 10% do custo do set top box e cujo preço é bastante similar de um sistema para outro.

 

Os outros quase 90% são constituídos dos mesmos componentes para os três sistemas, disponíveis em larga escala no mercado internacional. Assim, os preços de set top boxes com as mesmas facilidades, independentemente do sistema, serão similares.

 

As despesas com o pagamento de royalties é outro fator chave nas negociações que vem sendo promovidas pelo Governo Brasileiro. No caso do sistema japonês, não serão cobrados royalties referentes ao sistema de transmissão do ISDB-T, para fabricação, no Brasil, de receptores ISDB-T. Esta é uma vantagem significativa para o país, uma vez que essa redução de custo se transfere diretamente para o preço final do receptor, o que atende ao requisito de menor custo ao consumidor estabelecido pelo Governo Brasileiro.

 

A participação do Brasil no Forum de Desenvolvimento do ISDB-T foi considerada também de grande importância pelo Governo Brasileiro. A ARIB já expressou o seu concordância com a participação de brasileiros no órgão responsável por esta atividade.

 

Outro ponto que vem sendo levantado como de grande relevância é a possibilidade de exportação de receptores de TV digital para outros mercados. Nesta questão o fator mais importante é a competitividade que receptores brasileiros poderão ter em outros mercados. Se os produtos brasileiros não forem competitivos, não entrarão em outros mercados. Se forem competitivos, haverá possibilidade de exportação para os mercados em que esta condição for satisfeita, independentemente do sistema de televisão digital adotado no Brasil ou no país de destino, uma vez que quem fabrica receptores de um determinado sistema poderá fabricar receptores de qualquer um dos outros dois, pela simples troca do módulo demodulador.

 

Finalmente, a questão do financiamento para a implantação da TV digital no Brasil suscitou o oferecimento, por parte do JBIC – Japan Bank for International Cooperation, de financiamento num montante de 500 milhões de dólares americanos, podendo este valor ser aumentado se as necessidades forem maiores.

 

 

Comente!

Para enviar sua opinião para publicação como comentário a esta matéria para nosso site, clique aqui!

 

Nota: As informações expressadas nos artigos publicados nesta seção são de responsabilidade exclusiva do autor.