Seção: Tutoriais

 

Inovação e Colaboração I: introdução

 

No Brasil existem, aproximadamente, 13 milhões de empreendimentos, segundo o Censo de 2012 sobre as Empresas e Entidades Públicas e Privadas Brasileiras, realizado pelo IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário) (AMARAL, 2012), sendo que destes destacam-se 6 grupos econômicos que controlam as maiores empresas de telecomunicações (também chamadas de operadoras de telecomunicações) em atuação (TUDE, 2018), que são responsáveis por fornecer cerca de 314 milhões de acessos entre linhas de telefones fixos, celulares, banda larga e TV por assinatura aos usuários brasileiros residenciais (mercado consumidor) e empresariais (mercado corporativo) que, em conjunto, foram responsáveis por uma movimentação financeira bruta de aproximadamente R$193 bilhões em 2017, conforme detalhado na tabela 1 a seguir.

 

Tabela 1: Grupos Econômicos das Empresas de Telecomunicações no Brasil

Fonte: website Teleco (TUDE, 2018)

 

As empresas de telecomunicações tendem a buscar melhorar a eficiência de seus negócios, atrair cada vez mais clientes, aumentar suas receitas e reduzir seus custos operacionais ampliando sua lucratividade, paradigma comum no mundo capitalista e, para isso, têm se apoiado na inovação como meio para conseguirem diferenciar-se na concorrência acirrada presente nestes dias.

 

A inovação também traz consigo a necessidade de propor novos conceitos que contribuam para o desenvolvimento de novos produtos e serviços a serem realizados por estas empresas, o que é uma parte do resultado deste processo, já que a inovação pode ser mais ampla, incluindo também outras vertentes igualmente importantes, tais como as inovações educacionais, tecnológicas, comerciais, em modelos de negócios, organizacionais, processuais, entre outras.

 

Um dos meios encontrados para atender a esta demanda é lançar mão ao design e, assim, aproveitar sua flexibilidade, dinamismo e poder de criação para ajudar na identificação de novas oportunidades. Apesar de historicamente algumas vezes sua utilização ter sido questionada enquanto ciência, Borja de Mozota (2003) esclarece que:

 

A principal questão de que se é uma ciência ou uma arte é controversa, pois o design representa ambas. Sua técnica combina o caráter lógico do enfoque científico e as dimensões artísticas e intuitivas do esforço criativo. (BORJA DE MOZOTA, 2003 apud  STUBER, 2012, p. 15).

 

Segundo Tim Brown (2008), o design thinking é uma metodologia que unifica as características do design através de um processo estruturado de criação, focado em buscar inovações por meio da colaboração. Portanto, através dele pode ter-se mais facilmente os objetivos alcançados.

 

Trabalhar próximo aos clientes para entender suas necessidades, realizando várias rodadas de criação para buscar insights, e aplicar rapidamente estes conceitos na prática para testar sua aceitação. Estas são as etapas básicas de como este processo auxilia na busca constante de novas maneiras para resolver problemas complexos contemporâneos.

 

A participação das pessoas envolvidas neste processo é essencial para enriquecê-lo com uma maior quantidade de opções de solução e diferentes visões sobre uma mesma situação, pois, cada um traz em si sua experiência e vivência, distintas e únicas. Portanto, a colaboração de todos os envolvidos, das partes interessadas, internas e externas às empresas, pode tornar-se um fator fundamental para obter um melhor resultado.

 

Problema do estudo

 

Neste estudo de caso é tomado como referência a seguinte questão: como ocorre a inovação e a colaboração através do processo proposto pelo design thinking em uma empresa de telecomunicações no Brasil?

 

Revisão da Literatura

 

A literatura consultada contempla livros, artigos, monografias, dissertações e teses que tratam dos temas discutidos neste estudo, importantes pois trazem o que tem sido trabalhado e pesquisado sob diferentes pontos de vista e em diferentes instituições, enriquecendo o conteúdo com informações que servem de apoio para as reflexões realizadas.

 

Os temas relacionados e destacados são, o design thinking como mecanismo de promoção a inovação através da colaboração, e as telecomunicações como ambiente de pano de fundo propício para a aplicação desta metodologia.

 

A necessidade de inovação pelas empresas se dá, segundo Michael Porter (1989), porque não é possível ou desejável para a organização competir apenas por preços. Sendo assim, o que resta é competir por diferenciação ou busca de nichos de mercado cada vez mais especializados (PORTER, 1989 apud HANSON, 2013, p. 3).

 

Complementando esta visão, Peter Drucker (1987), afirma que “existem apenas duas funções importantes nos negócios: o marketing e a inovação; o resto são custos”. Mais do que concordar ou combater, o que pode-se observar é que Drucker chama a atenção para a importância da inovação incorporada aos produtos e aos negócios. (DRUKER, 1987 apud HANSON, 2013, p. 3).

 

Sendo assim, com uma organização e procedimentos bem definidos, consegue-se concentrar os esforços para não desperdiçar energia e perder eficiência, evitando retrabalhos desnecessários, e estes são alguns dos objetivos para os quais é proposto o design thinking, que segundo Desconsi (2012, p. 27) trata de combinar experiências múltiplas de cada sujeito que tem a oportunidade de participar do processo através de um “raciocínio projetual”.

 

Como princípios de atuação, uma das várias abordagens do design thinking busca utilizar sempre o foco a partir do ser humano através da empatia, colaboração e experimentação. (PINHEIRO e ALT, 2011, p. 6 apudBOSCHI, 2012, p. 49-50).

 

Em todo este processo a participação colaborativa não é somente incentivada, mas faz parte integral, natural e intrínseca da metodologia do design thinking na busca por diferentes pontos de vista para obter o máximo de opções, sentimentos e experiências possíveis a serem validadas. O desafio então é compreender o grau de participação e envolvimento destes indivíduos no processo, para que se garanta a agilidade necessária, fidelidade aos princípios praticados e chegar a uma conclusão satisfatória.

 

Sendo assim, não somente a colaboração interna entre os profissionais das diversas áreas da empresa é importante como também a externa, que é uma variação da inovação aberta, pois, a parceria entre entidades distintas pode trazer benefícios para ambas as partes em um movimento cíclico. (CASSIOLATO; LASTRES, 2005 apud ABREU; KUHL; MAÇANEIRO, 2014, p. 5).

 

Justificativas

 

Pode ser igualmente interessante considerar o mercado de telecomunicações, abordando a metodologia do design thinking e a colaboração como meios importantes a serem destacados. Avaliando possíveis mudanças positivas e construtivas que busquem sustentar um crescimento contínuo e em linha com as novas tecnologias e novos comportamentos.

 

Contribuir com um estudo de caso com características específicas de colaboração, pode apoiar a área de design e desenvolvimento de produtos e serviços, trazendo diversos insights e uma visão atual das questões envolvidas neste ambiente complexo, que busca sempre estar na vanguarda e em busca por inovações.

 

O pesquisador encontra suas motivações para desenvolver este estudo de caso em alguns fatores ocorridos no percurso de sua experiência acadêmica-profissional. Pois, uma vez engenheiro e especialista em telecomunicações, tendo atuado por mais de dez anos neste setor, até o momento desta publicação, sempre envolvido com novas tecnologias, se interessa pelas questões relacionadas a esta área. Além de ter sido tema de sua pesquisa e dissertação de mestrado acadêmico.

 

Objetivo

 

O objetivo geral desta investigação é refletir e analisar as possibilidades e impactos da colaboração no processo de design thinking na busca por inovações, sendo este praticado em uma empresa de telecomunicações.

 

A partir deste objetivo geral esta pesquisa também tem por objetivos específicos:

  • Realizar pesquisa de campo para coletar dados através de questionários e entrevistas aplicados ao caso selecionado;
  • Apresentar conclusão do estudo das buscas feitas em conjunto com as análises dos dados encontrados.

 

Hipóteses

 

É necessário inovar para se diferenciar, encontrar necessidades e evoluir. Assim, novos produtos trazem novas visões e novas aplicações que são meios para gerar esta inovação. Ao mesmo tempo, essas inovações estão relacionadas com incertezas e, assim, não pode ser garantido um retorno imediato para quem as produz, tendo este que adaptar-se a utilizar a incerteza como parte do processo de inovação.

 

Ouvir e entender o que os clientes e usuários precisam é importante para desenhar produtos que atendam suas demandas, ou seja sua participação na concepção pode se tornar um diferencial. O processo proposto pelo design thinking ajuda na obtenção de informações, dos anseios e necessidade destes sujeitos.

 

Ter uma equipe multidisciplinar no design da concepção dos produtos é importante por contribuir com diversos tipos de visões e experiências distintas, que em conjunto formam uma base sólida para a proposição de novos produtos e serviços.

 

O mercado de telecomunicações é dinâmico e exige das empresas que estejam em evolução contínua para atender seus clientes e entregar novos produtos com novas tecnologias, e o design thinking pode contribuir com esta tendência.

 

Quanto maior o envolvimento e participação de entes externos, maior será a quantidade de informações, percepções e experiências coletadas para contribuir no design de um produto que atenda com maior eficiência suas demandas e compartilhe os riscos. Com um processo claro fica mais fácil organizar e potencializar estas ideias em produtos que conquistem consumidores mais rapidamente, e ainda diminuindo as incertezas.

 

Fundamentação Teórica

 

É utilizada como base conceitual a pesquisa bibliográfica de Funicelli (2017), onde nela são discutidos alguns autores que são referência em suas áreas de atuação, tais como Schumpeter (1934) no que tange à conceituação da inovação, Pinheiro (2013) em sua abordagem sobre colaboração, e Brown (2008) com sua proposta do design thinking e aplicação no mundo corporativo.

 

Funicelli (2017) ainda apresenta as diversas Etapas e Modelos de design thinking discutidos por uma ampla gama de autores e os correlaciona para concluir que todos eles podem ser relidos com base na proposta inicial de Tim Brown (2008), que apresenta o design thinking apoiado em três pilares principais: empatia, ideação e implementação, e que também foi desdobrado pela IDEO em sua proposta de design thinking de sucesso, reconhecida por sua ampla utilização em diversos segmentos de mercado.

 

Existe a necessidade de caracterizar as telecomunicações, passando por seu desenvolvimento no Brasil até a atualidade, apresentando os desafios que este mercado enfrenta e sua importância estratégica, social e financeira para o país. Além disso, a competitividade imposta pelo cenário atual, exige cada vez mais que as empresas se dediquem a diferenciar seus produtos e serviços na busca por soluções tecnológicas que sejam atrativas aos clientes e com eficiência de custos.

 

Metodologia

 

É um estudo de finalidade aplicada e utiliza o método qualitativo de abordagem. Tem por tipo de pesquisa o estudo de caso único, por meio de questionários para a coleta dos dados a serem analisados.

 

Utiliza a pesquisa-participante, pois o pesquisador é também profissional atuante na empresa selecionada para servir de caso único a ser estudado. Esta opção foi selecionada por se tratar de um tema atual e contemporâneo, adequar-se ao perfil do pesquisador e este possuir um acesso facilitado às informações necessárias para o desenvolvimento do estudo. (YIN, 2015).

 

Quanto à questão da imparcialidade e objetividade científica que se busca, não foi afetada por este tipo de pesquisa-participante, pois, tanto o objeto de pesquisa quanto o pesquisador são parte do mesmo mundo ecossistêmico e complexo, conforme comenta Von Foerster sobre essa situação:

 

[...] o princípio da intersubjetividade, uma das categorias importantes do pensamento científico atual, revelada pelas descobertas das implicações dos princípios da Física Quântica na Filosofia das Ciências. Este princípio afirma a impossibilidade do conhecimento objetivo no mundo, pois existe uma interpenetração sistêmica entre sujeito e objeto, entre pesquisador e objeto pesquisado, fazendo com que o conhecimento da realidade a ser pesquisada surja a partir de uma relação indissociável entre ambos. Pesquisador e objeto pesquisado constituem um sistema observante. (VON DE FOERSTER apud MORAES, 2008, p. 106).

 

A realização do estudo é dividida em três diferentes etapas específicas para organizar a condução e o planejamento, sendo estas: pré-campo, campo e pós-campo, brevemente descritas a seguir:

  • Etapa pré-campo:
    • Realização de mapeamento e aprofundamento da revisão da literatura disponível sobre as teorias;
    • Elaboração dos instrumentos de coleta de dados;
    • Definição do caso e dos sujeitos participantes da pesquisa.
  • Etapa de campo:
    • Registro de atividades desenvolvidas pelos sujeitos da pesquisa;
    • Reuniões com participantes da pesquisa;
    • Elaboração de relatórios intermediários.
  • Etapa pós-campo:
    • Consolidação dos dados;
    • Análise crítica e aprofundada dos resultados;
    • Apresentação do relatório final com os resultados obtidos.

 

Com isto, é possível ter uma visão macro do tema proposto para pesquisa, o percurso a ser seguido e temas abordados.

 

Tutoriais

 

Este tutorial parte I apresenta inicialmente a fundamentação teórica deste estudo, com foco nos conceitos de Inovação, Colaboração, do Design Thinking propriamente dito, e do histórico das Telecomunicações. A seguir trata da Metodologia para a realização do estudo de caso do Design Thinking aplicado a uma empresa de telecom.

 

O tutorial parte II apresentará as atividades de campo para a realização do estudo de caso, detalhando a aplicação dos questionários, e a coleta de dados, sua classificação e categorização, e sua análise. A seguir apresentará os resultados obtidos para cada uma das fases do modelo IDEO.