Seção: Tutoriais

 

Inovação e Colaboração I: Fundamentação Teórica

 

Como comentado no capítulo anterior INTRODUÇÃO, este estudo tem como base teórica a pesquisa de Funicelli (2017), sendo assim é discutido neste capítulo os principais conceitos aplicados e que servem de referência conceitual.

 

Inovação

 

A etimologia da palavra inovação, com sua origem no latim innŏvo ou innovāre, faz alusão a renovar ou introduzir novidades. (BARBIERI, 2003 apud NOBRE, 2013, p. 26).

 

A cronologia dos processos de inovação remonta a metade do século XX, onde iniciam-se as discussões científicas a este respeito, e vão evoluindo conforme os processos de produção e desenvolvimento de produtos se adaptam a atender as diferentes necessidades de cada momento, conforme ilustrado na figura 1:

 

Figura 1: Cronologia da inovação

Fonte: (FUNICELLI, 2017, p. 134)

 

Schumpeter (1942) descreve o processo de inovação em três fases distintas: (1) invenção, que se estabelece por desenvolvimento de novos processos ou produtos, substancialmente diferentes, destinado a satisfazer determinados tipos de necessidades; (2) inovação, que consiste na aplicação com fins lucrativos de uma dada invenção; (3) difusão, que é o processo de adoção de uma invenção, o modo como os resultados alcançam os consumidores e mercados. (SILVA, 2014, p. 8-9 apud FUNICELLI, 2017, p. 135).

 

Figura 2: Processo de inovação segundo Schumpeter (1942)

Fonte: (FUNICELLI, 2017, p. 135)

 

O Manual de Oslo de 2005, elaborado pela OECD (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), tem como objetivo orientar e padronizar conceitos, metodologias e construir estatísticas e indicadores de pesquisa de P&D de países industrializados. Segundo este manual, “inovação é a implementação de uma nova solução (para a empresa) visando melhorar sua posição competitiva, seu desempenho ou seu know-how (conhecimento)”. O mesmo manual classifica a inovação como de produto, de serviço, de processo, no marketing e na organização (HANSON, 2013, p. 4 apud FUNICELLI, 2017, p. 136).

 

Figura 3: Pilares da inovação segundo Manual de Oslo (2005)

Fonte: (FUNICELLI, 2017, p. 137)

 

Ainda de acordo com o Manual de Oslo (2005), é recomendado que os dados sejam coletados para três tipos de interações no uso em pesquisas sobre inovação, esses são definidos como:

  • Fonte: informações disponíveis que não exigem a compra de tecnologia ou de direitos de propriedade intelectual, ou interação com a fonte;
  • Aquisição de conhecimento da tecnologia: compras de conhecimento externo e/ou conhecimentos e tecnologias incorporados em bens de capital (máquinas, equipamentos, softwares) e serviços, que não envolvem interação com a fonte;
  • Inovação cooperativa: cooperação ativa como outras empresas ou instituições públicas de pesquisa para atividades de inovação (que podem incluir compras de conhecimento e de tecnologia). (VARGAS, 2014, p. 31 apud FUNICELLI, 2017, p. 137).

 

O Manual de Oslo (2005) também recomenda que para detectar e entender melhor o processo de aglomeração ou de formação de redes no campo da inovação, pode-se obter informações adicionais pelo questionamento da localização geográfica dos parceiros da cooperação (local, nacional, estrangeira por região ou país). (VARGAS, 2014, p. 32 apud FUNICELLI, 2017, p. 137).

 

A inovação também pode ser classificada como incremental ou radical, sendo estas dependentes do período de tempo despendido em seu desenvolvimento, trajetória cursada, tipo das ideias utilizadas, processo, atores envolvidos e resultado obtido. (SCALIZA, 2015, p. 24 apud FUNICELLI, 2017, p. 141).

 

Ou seja, inovações radicais representam mudanças fundamentais nas atividades da organização, eventos descontínuos que mudam drasticamente produtos ou processos já existentes, ou é necessário um grupo desse tipo de inovação para gerar um grande efeito no sistema econômico. (SCHUMPETER, 1988; CHRISTENSEN; 2012 apud DECOSTER, 2015, p. 38).

 

Até recentemente, a gestão de inovação era orientada, sobretudo, por áreas funcionais, como Engenharia e P&D, que buscavam ser autossuficientes em aspectos como tecnologia e projeto de produto/processo. Essas organizações possuem equipes que desenvolvem soluções para as demandas relativas à inovação, de forma linear e fechada – a denominada Inovação Fechada, ou Closed Innovation (figura 4). (SCALIZA, 2015, p. 15 apud FUNICELLI, 2017, p. 144).

 

Figura 4: Processo de inovação fechada

Fonte: (SCALIZA, 2015, p. 27 apud FUNICELLI, 2017, p. 145)

 

O modelo de inovação industrial tradicional predominante no século XX é baseado na integração vertical, no qual a responsabilidade em inovar nas organizações consiste na divisão de P&D. O conceito de inovação aberta é o oposto desse padrão, por utilizar conhecimento externo em conjunto com o originado internamente para desenvolver novos produtos. (DECOSTER, 2015, p. 53 apud FUNICELLI, 2017, p. 145).

 

Devido às mudanças no contexto empresarial a partir do século XXI, em que os custos de inovação são cada vez maiores e os ciclos de vida dos produtos menores, além de maior oferta de profissionais qualificados, a open innovation é uma abordagem que tem crescido em importância, tanto no meio empresarial quanto acadêmico, e possui potencial para proporcionar criação e disseminação de inovações incrementais e radicais. (SCALIZA, 2015, p. 15 apud FUNICELLI, 2017, p. 145).

 

A mudança de paradigma, do modelo fechado para o de inovação aberta, implica na mudança de mentalidade nas empresas. Isso significa dizer que as empresas deixam de lado o controle total do conteúdo inovativo para ter acesso a informações e conhecimentos que, talvez, não teriam no modelo tradicional fechado. (CHESBROUGH, 2003 apud FUNICELLI, 2017, p. 146).

 

A figura 5, também proposta por Chesbrough (2003), apresenta os limites da empresa como permeáveis e passíveis de trocas com o ambiente externo em diversas fases da pesquisa e do desenvolvimento desses projetos. Destaca-se, também, que o objetivo final apontado nessa figura não representa apenas o mercado atual, mas a preocupação com a criação de novos mercados. (SCALIZA, 2015, p. 27).

 

Figura 5: Processo de inovação aberta

Fonte: (SCALIZA, 2015, p. 28 apud FUNICELLI, 2017, p. 147)

 

Colaboração

 

A palavra colaboração, quando consultada no dicionário, traz como significado o trabalho em comum entre uma ou mais pessoas.

 

O Modelo 3C de colaboração explica os diferentes tipos de trabalhos realizados em conjunto, como ilustrado na figura 6.

 

Figura 6: Etimologia da Colaboração – Modelo 3C

Fonte: (SOUZA, 2015 apud FUNICELLI, 2017, p. 110)

 

A cronologia da colaboração esbarra em como o P&D tem evoluído. Assim, Araújo (2014, p. 18 apud FUNICELLI, 2017, p. 111) apresenta um compilado das gerações de P&D, iniciando nos anos de 1950 até a 6ª geração na atualidade (figura 7).

 

Figura 7: Cronologia da Colaboração

Fonte: (FUNICELLI, 2017, p. 115)

 

Para Collis (1993), a colaboração, seja no contexto de ensino e aprendizagem ou corporativo entre empresas, constitui-se por meio de um processo de produção compartilhada: dois ou mais sujeitos, com habilidades complementares, interagem para criar um conhecimento compartilhado que nenhum deles tinha previamente ou poderia obter por conta própria. Nesse caso, a colaboração cria um significado compartilhado sobre um processo, um produto ou um evento. (PINHEIRO, 2013, p. 55 apud FUNICELLI, 2017, p. 115).

 

Isso significa que, ao trabalhar em grupo, os sujeitos podem produzir melhores resultados do que se atuassem individualmente. Em um trabalho colaborativo, portanto, ocorre, segundo o autor, a complementaridade de capacidades, de conhecimentos, de esforços individuais, de opiniões e pontos de vista, além de uma capacidade maior para gerar alternativas mais viáveis para a resolução de problemas. (PINHEIRO, 2013, p. 55 apud FUNICELLI, 2017, p. 115).

 

O trabalho colaborativo, por sua vez, não se caracteriza, segundo os autores, pela soma ou justaposição dos trabalhos individuais. Por isso, é necessária uma maior cumplicidade entre os participantes do grupo para estabelecimento de objetivos comuns e atividades a serem realizadas. Os autores ainda apontam que a cooperação é realizada “através da divisão do trabalho entre os participantes, como uma atividade em que cada pessoa é responsável por uma porção da solução do problema”, enquanto a colaboração envolve “o empenho mútuo dos participantes em um esforço coordenado para solucionarem juntos os problemas”. (PINHEIRO, 2013, p. 56 apud FUNICELLI, 2017, p. 116).

 

Por isso, diferentemente das visões que enxergam ambos os termos como antagônicos, excludentes mutuamente, Pinheiro (2013, p. 59 apud FUNICELLI, 2017, p. 118) os entende muito mais como partes complementares de um processo de trabalho coletivo (processo colaborativo), cujo nível de relacionamento entre os participantes e o grau de comprometimento com o trabalho podem aumentar ou diminuir, a depender das condições nas quais o trabalho em grupo ocorre.

 

Um sistema de inovação pode ser conceituado a partir das interações do modelo Triple Helix (Hélice Tríplice), proposto por Etzkowitz e Leydesdorff (2000). Os três componentes da ‘hélice tripla’ configuram uma espiral de intercâmbio, expansão e aplicação prática de conhecimentos diversificados, integrando: (1) produção de conhecimento em universidades, institutos de pesquisa e laboratórios de P&D; (2) difusão tecnológica e expansão do conhecimento no setor produtivo; e (3) apoio do Estado, por meio da formulação de políticas de inovação e implementação de infraestrutura, regulamentação, incentivos e fomento. (GAZDA; QUANDT, 2010, p. 3 apud FUNICELLI, 2017, p. 127).

 

No entanto, a literatura especializada ressalta que esta relação não se realiza espontaneamente, e requer a construção de novas instituições, novas práticas e novos valores, que favoreçam e facilitem a cooperação entre as três esferas. (PIRES; TEIXEIRA; HASTENREITER FILHO, 2012, p. 508 apud FUNICELLI, 2017, p. 128).

 

Leydesdorff e Etzkowitz (1998) ainda comentam que na lógica da Hélice Tríplice, universidade, indústria e governo colaboram e empreendem um processo de alavancagem de recursos mutuamente vantajoso, que visa criar ou descobrir conhecimento novo, passível de valoração econômica. Na interseção das três esferas institucionais, surgem mecanismos híbridos, como escritórios de ligação, escritórios de transferência de tecnologia, parques tecnológicos, incubadoras de empresas e centros de pesquisa cooperativa, os quais facilitam a comunicação e a interação entre os eixos da hélice, o alinhamento de esforços e a transferência de tecnologias e conhecimentos entre a academia e a indústria. (PIRES; TEIXEIRA; HASTENREITER FILHO, 2012, p. 510 apud FUNICELLI, 2017, p. 129).

 

Design Thinking

 

O design thinkingvem sendo estudado como um tipo de pensamento que usa o design como ferramenta de trabalho mental de uma forma holística. Os dicionários ingleses oferecem um significado para pensar em algo (thinking of), imaginar, visualizar e até sonhar. Pensar sobre algo, como um problema (thinking about), parece ser uma atividade na qual se considera, se reflete e delibera. Já pensar através de algo (thinking through) é entender, compreender, descobrir. (BÜCKER, 2015, p. 42 apud FUNICELLI, 2017, p. 33).

 

Na opinião de alguns pensadores, o design thinking abrange essas qualidades interpretativas (NITZSCHE, 2012, p. 33). Além disso, a metodologia propõe uma etapa de prototipagem do aprendizado construído, para que o sujeito possa vivenciar e experimentar na prática o conhecimento que está sendo gerado e construído. (BÜCKER, 2015, p. 42 apud FUNICELLI, 2017, p. 33).

 

Para Nitzsche (2012), o conhecimento deriva da própria experiência humana e é preciso pensar agindo, experimentando. (BÜCKER, 2015, p. 42 apud FUNICELLI, 2017, p. 35).

 

No passado, as empresas transformavam seus negócios inovando pela excelência focada na eficiência e simplificação de suas operações básicas e ofertas estratégicas. Porém, estes tipos de inovações vêm se igualando no mercado, e as empresas estão percebendo que para se manterem competitivas devem mudar seu foco de inovação para as necessidades das pessoas no seu dia a dia. (FUNICELLI, 2017, p. 34)

 

Kumar (2009) afirma que as inovações pelo design tornaram-se a chave do sucesso para as companhias atuarem nos mercados globais, sendo que o design thinking ajuda a encontrar novas oportunidades para a inovação realizada por intermédio de um profundo conhecimento das necessidades das pessoas. (STUBER, 2012, p. 44 apud FUNICELLI, 2017, p. 34).

 

Tais inovações começam com a meta primária de criar ofertas que sejam desejadas pelos usuários e que preencham suas necessidades, gerando, dessa forma, valor para o cliente. Para o autor, o desafio, no entanto, não é apenas adotar os métodos de design nos seus processos de inovação, mas, também, fundir tais métodos eficientemente com os seus processos de modelagem de negócios e desenvolvimento de tecnologias. (STUBER, 2012, p. 44 apud FUNICELLI, 2017, p. 34).

 

As empresas devem entender de forma compatível os métodos de design e suas ferramentas, tomando cuidado para praticar a inovação pelo design de forma colaborativa, confiável e replicável. As inovações geradas pela integração cuidadosa dos processos de design com os de negócios e tecnologia têm maior chance de sucesso. (STUBER, 2012, p. 44 apud FUNICELLI, 2017, p. 34).

 

As fases do design o classificam em quatro ordens (figura 8), sendo as quais se desenvolveram ao longo do século XX. A primeira ordem refere-se ao design gráfico. Esta surgiu de uma preocupação com símbolos visuais e com a comunicação de informações em palavras e imagens, que levaram a novas mídias e ferramentas, tais como fotografias, filmes, sons, televisão, culminando com a expressão digital. (STUBER, 2012, p. 21 apud FUNICELLI, 2017, p. 34).

 

A segunda ordem diz respeito ao design industrial, que se foca na criação de bens de consumo produzidos em massa, a partir de uma perspectiva externa, ou seja, forma, função, materiais, métodos de produção e utilização dos produtos. A terceira ordem, definida por Buchanan (2001) como o design de interação, refere-se ao modo pelo qual esses símbolos e objetos se tornam parte da experiência de vida cotidiana dos seres humanos, pois a preocupação é em como os seres humanos se relacionam uns com os outros através da influência mediadora de produtos, no sentido mais amplo que apenas objetos físicos, tais sejam, serviços ou experiências. (STUBER, 2012, p. 21 apud FUNICELLI, 2017, p. 34).

 

A quarta ordem coloca sua lente teórica nos sistemas humanos, na integração das informações, nos artefatos físicos e interações em ambientes de vida, de trabalho ou de lazer, assim sob esta lente dos sistemas complexos da vida, o design thinking atua. (STUBER, 2012, p. 21 apud FUNICELLI, 2017, p. 34).

 

Enquanto o design traz em seu histórico uma série de embasamentos conceituais e teóricos advindos dos contextos da arte, da arquitetura, das engenharias e também do marketing, o design thinking é uma expressão criada para determinar uma percepção sobre um universo que leva em consideração o processo de pensamento utilizado pelo designer. (VIANNA et al.,2012; BROWN, 2010 apud FERRO, 2014, p. 40).

 

Figura 8: As quatro fases do design

Fonte: (FUNICELLI, 2017, p. 35)

 

Sendo assim, a cronologia do design thinking remonta à década de 60 do século XX (ALEXANDER, 1964; ARCHER, 1963), onde este processo era visto, de forma geral como uma sequência, bem definida, de atividades, baseado no método científico clássico (BAZJANAC, 1974). Percorrendo a evolução e se adaptando às necessidades humanas, ele foi se desenvolvendo, como é observado na figura 9:

 

Figura 9: Cronologia do design thinking

Fonte: (FUNICELLI, 2017, p. 39)

 

Existe na literatura diversas metodologias empregadas sob o rótulo de design thinking, como discutido por Funicelli (2017) em sua pesquisa, entretanto é possível selecionar àquelas que fazem jus aos principais conceitos e proposta ao qual foi criado.

 

Toma-se como base as etapas de design thinking apresentadas por Tim Brown, precursor nesta área, onde ele divide em três partes a execução desta metodologia, como ilustrado na figura 10, e também a aplicação desenhada pela IDEO, importante empresa de design que tem na atualidade o próprio Tim Brown como seu CEO, e que por vários anos vem aplicando esta metodologia em seus clientes gerando grandes resultados.

 

Figura 10: Etapas do design thinking segundo Brown (2008)

parta para o próximo projeto   pense nos negocios   estratégia de comunicação   Execute a visão   prototipe, teste com   usuários e internamente   compartilhe   CO ?teamal   -s histórias   protótipos e testes   coloque o usuario no centro   pense em conjunto   orgamze o caos   Espere sucesso   Qual o problema?   Observe   Restrições   misture disciplinas   Usuários extremos   compartilhe ideias   Pesquise tecnologias   organize e analise   desenhos e cenários   Brainstorm

Fonte: (ALMEIDA, 2014, p. 34 apud FUNICELLI, 2017, p. 53)

 

Inspiração é o problema ou a oportunidade que motiva a busca de soluções; ideação é compreendido como o processo de gerar, desenvolver e testar ideias; e implementação como o caminho que conduz a ideia a partir da fase de projeto até chegar à vida das pessoas. (BROWN; WYATT, 2010; SERRAT, 2010 apud OLIVEIRA, 2014, p. 108).

 

Porém, a observação somente terá sucesso se o componente da equipe desenvolver esta, que é uma das características mais importantes do design thinker (BROWN, 2010), a empatia, a tentativa de ver o mundo através dos outros, compreendê-lo por meio das experiências alheias e senti-lo por suas emoções. Para Brown (2010), o desenvolvimento da empatia é o que, talvez, distingue o pensamento acadêmico do design thinking. (OLIVEIRA, 2014, p. 108; SILVA, 2014, p. 18-19 apud FUNICELLI, 2017, p. 54).

 

Para Brown (2009), os designers são curiosos, o que, nessa fase do processo, ajuda a gerar insights, dado que se observa o comportamento das pessoas frente ao problema delimitado. (BONINI; SBRAGIA, 2011, p. 10 apud FUNICELLI, 2017, p. 55).

 

Para Brown (2009), a ideação é o processo no qual as ideias e conceitos são gerados e prototipados, com o objetivo de gerar inovações sobre os problemas identificados na etapa de inspiração. Para isso, realizam-se sessões de brainstorming com equipes multidisciplinares, e as melhores ideias são submetidas a uma avaliação da própria equipe. (BONINI; SBRAGIA, 2011, p. 10-11 apud FUNICELLI, 2017, p. 55).

 

O principal resultado desse processo não é o levantamento do potencial de lucratividade do protótipo em si, mas o aprendizado sobre os pontos fortes e fracos da ideia, além da identificação de novos rumos para esse protótipo. Brown (2009) afirma que a prototipagem é mais um dos estágios da criação e concepção da ideia: nos estágios iniciais ela é importante para gerar ideias, invertendo o pensamento tradicional de imaginar para criar, por trazer à tona a lógica de criar para visualizar e imaginar novas alternativas e soluções. (BONINI; SBRAGIA, 2011, p. 11; SILVA, 2014, p. 19-20; STUBER, 2012, p. 34-35 apud FUNICELLI, 2017, p. 55).

 

Esta ideia significa que a etapa final deste processo, que procura converter a criatividade em inovação, surgirá como resposta ao cruzamento de três importantes variáveis – desejabilidade, viabilidade e praticabilidade – que representam a relação entre a solução idealizada, os seus clientes (utilizadores) e a empresa que a desenvolve e a disponibiliza. (BROWN, 2008 apud AMORIM, 2013, p. 16).

 

Assim, ao longo desta etapa, para além da conclusão dos testes com protótipos e respectivas correções e afinações, deverão ser estudados e analisados todos os passos que permitam a comunicação e disponibilização da solução ao mercado. Desde a estratégia de marketing, o modelo de negócio associado, as relações estratégicas necessárias, os processos de produção e logística, etc. (BROWN, 2008 apud AMORIM, 2013, p. 16).

 

A IDEO, por sua vez, se comprovou ser muito eficiente neste processo, e extrapola sua proposta estabelecendo cinco passos em sua metodologia, sendo eles: descoberta (“tenho um desafio, como eu abordo isto?”), interpretação (“aprendi algo, como eu interpreto isto?”), ideação (“vejo uma oportunidade, como eu crio?”), experimentação (“tenho uma ideia, como construo isto?”), e evolução (“tenho algo novo, como eu evoluo isto?”), como representado pela figura 11 (ALMEIDA, 2014, p. 38 apud FUNICELLI, 2017, p. 65).

 

Figura 11: Modelo IDEO

Fonte: (ALMEIDA, 2014, p. 39 apud FUNICELLI, 2017, p. 66)

 

A IDEO criou um sistema levando em consideração os momentos de expansão de ideias e foco, e adiciona ao final uma fase de evolução que torna o processo cíclico. (ALMEIDA, 2014, p. 39 apud FUNICELLI, 2017, p. 66).

 

Assim, a primeira etapa deste processo é Empatizar (“empathize”) e, nesta etapa, deve-se: (1) observar o indivíduo (o seu comportamento no seu contexto), (2) interagir com o indivíduo (através de entrevistas programadas, e não programadas), e (3) imergir (experimentando o que os indivíduos sentem no seu contexto). (BARTOLOMEU, 2014, p. 11 apud FUNICELLI, 2017, p. 66-67).

 

A segunda etapa, designada por Definição (“define”), é o momento em que desmonta e sintetiza os dados recolhidos na etapa anterior, reconstruindo-os através da definição do problema em mãos, e da criação da visão única, e que vai guiar o restante processo. Esta fase é importante porque vai definir de forma clara o problema com que deve lidar, ao mesmo tempo em que expressa a perspectiva e preocupações do cliente, e motiva e inspira a equipe. Este é um momento crítico do modelo porque vai guiar os esforços futuros. (BARTOLOMEU, 2014, p. 11-12 apud FUNICELLI, 2017, p. 67).

 

A terceira etapa, Ideação (“ideate”), é o momento do processo de design em que se foca, especificamente, na criação de ideias e alternativas. Em termos mentais e cognitivos, implica uma abertura de horizontes, pois a ideia é explorar alternativas e soluções. Será a partir deste conjunto alargado de ideias, que mais tarde são criados os protótipos, logo, é importante ser o mais abrangente possível, de forma a alimentar o processo criativo e não perder alternativas e possibilidades de resolução. (BARTOLOMEU, 2014, p. 12 apud FUNICELLI, 2017, p. 67).

 

A quarta etapa, designada por Prototipar (“prototype”), é a fase em que traz as ideias do campo das cognições para o mundo real e se experimenta com elas. Ou seja, um “protótipo” pode ser qualquer manifestação real de uma ideia que tenha sido definida na fase anterior, e desta forma pode assumir qualquer forma dentro do real (objeto, espaço, interface, atividade de role-playing, entre outras). (BARTOLOMEU, 2014, p. 12 apud FUNICELLI, 2017, p. 67).

 

Por último, tem a fase de Teste (“test”), que é a fase final deste modelo de design thinking e que permite refinar as soluções, transformando-as em alternativas mais sólidas. Esta fase permite igualmente aprender mais acerca do cliente, testar as alternativas, e visões sobre o problema, e aprender com os testes que falham, de forma a conseguir criar uma solução mais compacta e adequada de futuro, como apresentado na figura 12 (BARTOLOMEU, 2014, p. 12 apud FUNICELLI, 2017, p. 68).

 

Figura 12: Fases do modelo IDEO

EMPATHIZE   DEFINE   IDEATE   PROTOTYPE   TEST

Fonte: (BARTOLOMEU, 2014, p. 12 apud FUNICELLI, 2017, p. 68)

 

Telecomunicações

 

A cronologia das telecomunicações tem início em 1876 quando Graham Bell apela para seu auxiliar falando junto ao transmissor do aparelho a que se dedicava: - “Senhor Watson, venha cá. Preciso do Senhor”. Ao que Thomas August Watson, o eletricista ajudante, responde: “Senhor Bell, ouvi cada palavra que o senhor disse, distintamente”. (BRASIL, 2010).

 

No dia 14 de fevereiro de 1876, Graham Bell solicita o registro de patente do seu invento, duas horas antes de Elisha Gray, que pesquisava sobre o mesmo assunto ao mesmo tempo que Bell. Obtida a patente, Bell e Watson retornam a trabalhar com afinco no transmissor de indução, aperfeiçoando-o, tendo em mente a Exposição do Centenário da Independência dos Estados Unidos da América naquele mesmo ano. (BRASIL, 2010).

 

A Exposição do Centenário foi aberta no dia 4 de julho, com a participação de milhares de pessoas, entre elas personalidades de fama internacional, inclusive o Imperador do Brasil, D. Pedro II. (BRASIL, 2010).

 

D. Pedro II ordenou a instalação de linhas telefônicas interligando o Palácio do Quinta da Boa Vista às residências dos seus Ministros. Isso aconteceu em 1877, através dos serviços de montagem da “Western and Brazilian Telegraph”, que inaugurava efetivamente a telefonia no Brasil. Naquele mesmo ano, o sucesso do telefone já despertara o interesse do comércio e da indústria. (BRASIL, 2010).

 

Após decisão do Conselho de Estado, foi concedida à “Telephone Company do Brasil”, através do Decreto nº 8065, de 17 de abril de 1881, a permissão “para fazer negócio de construir e fazer trabalhar linhas telephonicas da cidade do Rio de Janeiro e seus subúrbios e na cidade de Nictheroy”, no Império do Brasil, que serão postas em comunicação com a dita capital por um cabo submarino [...]”. Esta empresa foi, portanto, a primeira a explorar os serviços de telefonia no Brasil com fins comerciais. (BRASIL, 2010).

 

Já em 1890 foi outorgada concessão para implantação da primeira linha telefônica interurbana no País, entre Rio de Janeiro e São Paulo, ficando autorizado o concessionário, a empresa alemã Brasilianische Elektricitats Gesellschaft, a instalar centrais telefônicas nas cidades terminais. Em 1912, essa empresa foi incorporada no Canadá à Brazilian Traction Light & Power. Posteriormente, em 11 de janeiro de 1923 a subsidiária brasileira da Brazilian Traction passou a denominar-se Companhia Telephonica Brasileira (CTB). (BRASIL, 2010).

 

A primeira instalação telefônica interurbana foi realizada em 1957 através de enlaces por micro-ondas no Brasil entre o Rio de Janeiro e São Paulo. No mesmo ano, foi inventado o transistor, que, substituindo as antigas válvulas eletrônicas, permitiu que os equipamentos de telecomunicações fossem modernizados e diminuíssem de tamanho. Em 1958 já é implantado o sistema de Discagem Direta à Distância (DDD) entre São Paulo e Santos através de um cabo coaxial. (BRASIL, 2010).

 

No ano de 1962, o país contava com pouco mais de 1 milhão de telefones para uma população de mais de 70 milhões de habitantes. Mais de 900 concessionárias de serviços telefônicos operavam no país. (BRASIL, 2010; MELO, 2009, p. 353).

 

Sendo assim, em 27 de agosto de 1962 foi editada a Lei 4.117, o Código Brasileiro de Telecomunicações. Esta lei possibilitou a criação do sistema Nacional de Telecomunicações, atribuiu à União a competência para explorar diretamente os serviços, regulamentou o artigo 151 da Constituição de 1946, que tratava das tarifas, autorizou o Poder Executivo a criar uma empresa pública para explorar os serviços, definiu uma fonte de recursos (o Fundo Nacional de Telecomunicações - FNT) para implantação dos meios necessários à execução dos serviços - a partir de uma sobretarifa de 30% sobre as tarifas dos serviços públicos de telecomunicações - e “definiu o relacionamento entre o poder concedente e o concessionário no campo das telecomunicações”. (BRASIL, 2010; MELO, 2009, p. 353).

 

Em seu artigo 42, autorizou o Poder Executivo a criar uma empresa para explorar os serviços de telecomunicações, batizada de Empresa Brasileira de Telecomunicações - Embratel. (BRASIL, 2010; MELO, 2009, p. 353).

 

Em 1967, foi instalado o Ministério das Comunicações, ao qual a Embratel foi subordinada. Na continuidade do processo, a Telebrás foi criada, em 1972, como uma holding das empresas do sistema, com o objetivo de coordenar o desenvolvimento do setor, principalmente com relação aos serviços locais, que necessitavam de imensos investimentos devido à sua precariedade e como forma de unificar a oferta dos serviços no que tange à sua infraestrutura. (MELO, 2009, p. 354; MIRANDA; KUME; PIANI, 2011, p. 8).

 

Entre 1974 e dezembro de 1977, dos 2,5 milhões de telefones em serviço, inicialmente, atingiu-se 4,5 milhões. O número de telefones públicos era de apenas 13.000 em serviço, e, ao final de 1977, ultrapassou os 31.000 em funcionamento, correspondendo a um crescimento superior ao dobro. Em 1974, o Brasil dispunha de 39.000 canais de voz instalados, esse número, ao final de 1977, chegou a cerca de 115.000, que corresponde a um crescimento de quase três vezes. O sistema DDD - Discagem Direta à Distância, que dispensa o auxílio da telefonista em 1974 atendia a 156 localidades e, no final de 1977, esse número cresceu para 533 cidades. (BRASIL, 2010).

 

No entanto, mesmo o setor sendo protegido e o mercado reservado, o que proporcionou o crescimento da indústria, havia a imposição de um custo para as empresas: a nacionalização de componentes. Como a inovação tecnológica é o que impulsiona o setor, e sendo os investimentos diretos e os incentivos em P&D uma das ferramentas de política industrial mais utilizadas nos países desenvolvidos, a criação do CPqD (Centro de Pesquisa e Desenvolvimento) em 1976, foi o instrumento nacional para reduzir a dependência tecnológica externa. (MIRANDA; KUME; PIANI, 2011, p. 8)

 

Contudo, nos anos 80, em decorrência do cenário mundial, também pelo qual passava o Brasil – a saber, os efeitos negativos da política de contenção de gastos pelo governo – os investimentos diminuíram, o que acarretou um descompasso entre oferta e demanda, culminando na degradação dos serviços que vigoraria até meados da década seguinte. Mesmo em meio à crise, em 1989 foi inaugurado o sistema de telefonia móvel do país, baseado em tecnologia analógica. (MIRANDA; KUME; PIANI, 2011, p. 9).

 

O setor, desse modo, no início da década de 90, era caracterizado pela pequena dimensão da rede telefônica, desequilíbrios regionais devido à má distribuição dos terminais telefônicos, qualidade insuficiente do serviço, oferta insuficiente de telefonia avançada, alto custo dos terminais, longo prazo de espera para a instalação das linhas, além dos baixos níveis de investimento. (MELO, 2009, p. 354).

 

Durante o governo do presidente Collor (1990/92), houve forte pressão para a privatização do sistema Telebrás e para a desregulamentação do setor. Entretanto, não se alcançou uma política consistente para a área: proliferaram-se medidas de cunho liberalizante, sem, contudo, se criar um modelo de concorrência consistente. (MELO, 2009, p. 354-355).

 

O serviço de telefônica móvel analógico passou a operar no ano de 1990, primeiramente no Rio de Janeiro, e, em seguida, em Brasília. Apenas em 1998, ano em que foi realizado o leilão do sistema Telebrás, entraram em operação em São Paulo os primeiros celulares digitais. (MELO, 2009, p. 354-355).

 

Em meados de 1990, o país possuía aproximadamente 14 milhões de acessos instalados, sendo 13 milhões na telefonia fixa e 800 mil na telefonia móvel, e a tele densidade ultrapassava 9 acessos por 100 habitantes. Porém, mais de 95% desse total estavam em residências de famílias de alto poder aquisitivo, com 80% da população pobre em áreas rurais e urbanas sem telefone. (MIRANDA; KUME; PIANI, 2011, p. 9).

 

Em 1996, aprovou-se uma Lei (9295/96), que permitiu a licitação de concessões de telefonia celular da banda B. Somente em julho de 1997 foi aprovada a Lei Geral das Telecomunicações (LGT), que definiu a base regulatória e as diretrizes para a privatização do setor de telecomunicações no Brasil, responsável, logo, por traçar o novo modelo para este setor. A base para esse novo modelo seria a universalização dos serviços e a livre competição. (MELO, 2009, p. 355).

 

O cenário de forte competição no setor de telecomunicações dos EUA forçou as novas operadoras a adotarem uma política arrojada de expansão para outros países. Além disso, Carvalho Neto (1998, p. 106) comenta que os altos investimentos em inovações tecnológicas para efetivar a convergência entre serviços telefônicos fixos e móveis, TV por assinatura e transmissão via rádio, oferecidos pelas companhias a partir do início dos anos 90 do século XX, forçaram o governo estadunidense a estimular uma política de abertura dos mercados de telecomunicações de outros países, notadamente da América Latina. (AQUILES, 2011, p. 90).

 

No Brasil, o processo de privatização no setor de telecomunicações se efetivou tardiamente em relação aos demais países do continente. No entanto, o modelo adotado a partir de 1998, em linhas gerais, manteve a tendência de quebra de monopólio estatal e de adoção de um sistema flexível operado em grande medida por companhias privadas de capital internacional, com o papel do Estado restrito à regulação e à fiscalização. (AQUILES, 2011, p. 93).

 

A LGT foi responsável pela criação do órgão regulador independente, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), e abriu caminho para a aprovação do Plano Geral de Outorgas (PGO). – que estabeleceu a política de competição nesse setor, dividindo geograficamente as áreas de atuação das concessionárias de telefonia fixa e as regras para a entrada de novos concorrentes – e do Plano Geral de Metas de Universalização (PGMU). – acesso generalizado, independentemente da localização e do nível de renda –, estabelecendo uma “regulação autônoma, originária e aberta para o setor” (SUNDFELD, 2007, p. 4). (MIRANDA; KUME; PIANI, 2011, p. 10).

 

Como forma de facilitar a privatização, o Sistema Telebrás foi dividido em várias empresas: na área de telefonia celular, as concessionárias estaduais foram agrupadas em oito holdings da banda A; na área de telefonia fixa, as 26 operadoras foram agrupadas em três holdings regionais, enquanto a Embratel continuou atuando em todo o país com serviços de longa distância. (MELO, 2009, p. 355; AQUILES, 2011, p. 18).

 

Em 1998, concluiu-se a privatização do sistema TELEBRÁS por intermédio de 12 leilões consecutivos na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. A arrecadação do Governo com a venda foi de 63% acima do valor mínimo estipulado, ou seja, arrecadaram-se R$22 bilhões. O Plano Geral de Outorgas dividiu o Brasil em quatro grandes regiões e foram privatizadas quatro empresas fixas: Região 1 – Tele Norte Leste – que ficou a cargo da Telemar; Região 2 – Tele Centro Sul – que ficou a cargo da Brasil Telecom; Região 3 – Telesp – que ficou a cargo da Telefônica; e região 4 que ficou a cargo da Embratel (figura 13). (MELO, 2009, p. 355; AQUILES, 2011, p. 18).

 

Figura 13: Definição regional, definida pelo PGO e por áreas do PGCN

ao serviço de telefonia local (mapa I.A). Os serviços de longa distância nacional e   internacional seriam prestados na região IV, composta por todo o território nacional.   As subsidiárias da Telebrás foram agrupadas em três holdings de telefonia fixa e uma para   longa distância, de acordo com as regiões (tabela | ).18 0 objetivo era criar empresas que   tivessem capacidade de financiar os investimentos para a expansão da rede e, ao mesmo   tempo, instituir parâmetros de comparação entre operadoras para aumentar a eficiência   da agência reguladora.   MAPA 1   Divisão regional, definida pelo PGO e por áreas do Plano Geral de Códigos Nacionais (PGCN)   1997-2001   de 2002   Para que conseguissem se estabelecer no mercado, a LGT garantiu um ano de   monopólio regional a esses grupos. Apenas em 1999 foram realizados os leilões para   autorizações das chamadas empresas 'espelho' , que criavam um duopólio em cada uma   das regiões (tabela l, última coluna). Corno autorizatárias de serviços privados, estas   não possuíam metas de universalização a serem cumpridas. Tal diferença de tratamento   é explicada pelo caráter pró-entrante da regulação, como descrito anteriormente. Apesar   dessa assimetria, determinadas áreas, consideradas de baixa rentabilidade, não atraíram   o interesse dos 'espelhos'. Como forma de assegurar um nível mínimo de concorrência   18. Com esta nova configuração, o país passou a ter seis operadoras de telefonia fixa local, as três resultantes do Sistema   Telebrás e três pequenas outras já existentes — Companhia de Telecomunicações do Brasil Central (CTBC), Centr*s Telefô-   nicas de Ribeirão Preto (Ceterp) e Sercomtel.   Rio de Janeiro,   15   marco de 2011

Fonte: (TELECO, 2007a apud MIRANDA; KUME; PIANI, 2011, p. 15)

 

Para que conseguissem se estabelecer no mercado, a LGT garantiu um ano de monopólio regional a esses grupos. Apenas em 1999 foram realizados os leilões para autorizações das chamadas empresas “espelho”, que criavam um duopólio em cada uma das regiões. (MIRANDA; KUME; PIANI, 2011, p. 15).

 

O passo seguinte para estimular a concorrência foi dado em janeiro de 2002, quando as concessionárias puderam passar a oferecer serviços fora de sua região de concessão, sob a condição de terem atendido antecipadamente às metas de universalização estabelecidas para 2003. Assim, poderiam ser geradas parcerias entre prestadoras dos diferentes segmentos para a realização das três modalidades de serviço: local, longas distâncias nacional e internacional. (MIRANDA; KUME; PIANI, 2011, p. 16).

 

Ainda em 2002, com o fim das restrições ao número de operadoras em cada região, foi estabelecido um novo conjunto de áreas para autorizações de prestação do serviço de telefonia fixa, composto pelas três regiões anteriores e mais 67 outras áreas (sub-regiões) identificadas no PGCN – Códigos DDD. Com as novas autorizações, em 2006, outras 21 operadoras se tornaram aptas a oferecer serviços de telefonia fixa. Porém, a participação das concessionárias continuou sendo bastante elevada, próximo a 95% em cada uma das regiões. (MIRANDA; KUME; PIANI, 2011, p. 16).

 

No processo de reestruturação da telefonia móvel, o território nacional foi dividido em dez áreas. Em cada uma delas, o serviço poderia ser ofertado em duas faixas de frequência (bandas A e B). Em 1997, foram concedidas as primeiras autorizações para a banda B. No ano seguinte, as operadoras do Sistema Telebrás foram agrupadas por área, formando as operadoras da banda A, e privatizadas separadamente. (MIRANDA; KUME; PIANI, 2011, p. 17).

 

O duopólio neste segmento vigorou até 2000, quando foi feito um novo regulamento. Agora, as dez antigas áreas foram agrupadas em uma divisão regional idêntica àquela da telefonia fixa. Foram realizadas as licitações para autorizações das bandas C, D e E, formando o segundo segmento móvel no país. (MIRANDA; KUME; PIANI, 2011, p. 17).

 

A mudança ocorreu, também, no padrão tecnológico vigente. A revolução digital dos anos 80, o desenvolvimento da Internet e de novas formas de transmissão de dados (tais como fibra óptica, via satélite, banda larga e até mesmo redes sem fio) permitiram a entrada de novos fornecedores de equipamentos no mercado para concorrer com os já estabelecidos e, consequentemente, acirrar tal movimento, quebrando a ideia de monopólio natural vigente desde a constituição do setor. (MELO, 2009, p. 355-356).

 

Em 2001, dado o avanço tecnológico e a tendência à integração no setor, a Anatel criou um novo tipo de serviço de telecomunicação fixo e de interesse coletivo, prestado no regime privado, para transmissão, emissão e recepção de informações multimídia (áudio, vídeo, dados, voz, imagem e textos): o Serviço de Comunicação Multimídia (SCM). Neste grupo, estão incluídos os serviços de comunicação de dados, como, por exemplo, o suporte à conexão de acesso à internet. Para prover o acesso à internet, uma empresa terá de usufruir de um serviço de telecomunicações que lhe dê suporte. (MIRANDA; KUME; PIANI, 2011, p. 19).

 

Dado que se trata de item de interesse coletivo, a exploração dos serviços de suporte à conexão está condicionada à prévia autorização da Anatel, a título oneroso. As condições para obtenção deste tipo de autorização são similares àquelas da telefonia fixa e móvel. Em 2009, existiam 1.645 prestadoras autorizadas pela Anatel a explorar os diferentes tipos de comunicação multimídia no Brasil. (MIRANDA; KUME; PIANI, 2011, p. 19-20).

 

Em maio de 2010, o governo lançou oficialmente o Plano Nacional da Banda Larga com o objetivo de universalizar a internet rápida no país, triplicando o acesso, passando de 11,9 milhões de domicílios para quase 40 milhões até 2014. A Telebrás foi reativada e é a responsável pela infraestrutura, pela implementação da rede de comunicação da administração pública federal e pelo apoio a universidades, centros de pesquisa, escolas, hospitais e outras localidades de interesse público. O acesso ao público em geral é fornecido por empresas privadas. (MIRANDA; KUME; PIANI, 2011, p. 20).

 

O processo de reestruturação do setor estimulou a entrada de novas prestadoras e uma participação elevada do capital estrangeiro. Após 2002, com a abertura, o número de autorizatárias aumentou significativamente, tanto na telefonia fixa (local e longa distância), quanto na telefonia móvel. Em 2009, a telefonia fixa local contava com 25 operadoras, incluindo as seis concessionárias. (MIRANDA; KUME; PIANI, 2011, p. 29).

 

Para a longa distância (nacional e internacional), 56 prestadoras estavam em funcionamento, incluindo as concessionárias e operadoras de telefonia móvel. Na telefonia celular, nesse mesmo ano, existiam 7 operadoras (TELEBRASIL, 2010). Embora o número de operadoras fosse elevado na telefonia fixa local, as três concessionárias formadas a partir das subsidiárias da Telebrás mantiveram o controle de parte significativa no mercado. (MIRANDA; KUME; PIANI, 2011, p. 29).

 

Como descrito, o setor de telecomunicações tem passado nas últimas décadas, por transformações profundas em seu modelo organizativo, e em escala global. Nesse sentido, a modernização das empresas, a partir das novas tecnologias de base microeletrônica, deu uma nova configuração à escala corporativa. As telecomunicações tornaram-se um elemento central do capitalismo globalizado, integrando sistemas produtivos e conferindo maior agilidade nas trocas de informações. (AQUILES, 2011, p. 84).

 

Cavalcante (2009, p. 13) afirma que “as telecomunicações constituem, na atualidade, uma ferramenta de grande importância para a forma de acumulação do capital que vem se desenhando desde a década de 1970”. Prova disso é que toda a infraestrutura necessária à mundialização do capital reside no poder e nas possibilidades que surgem incessantemente nesse setor, principalmente pela convergência deste com as inovações da informática. (AQUILES, 2011, p. 84).

 

As mudanças operadas no setor de telecomunicações forjaram uma nova realidade na lógica interna do capitalismo. A ampliação do papel das telecomunicações, como meio pelo quais as informações são interligadas, deu-se, simultaneamente, em duas direções: das empresas demandando um sistema mais ágil e abrangente; e da evolução tecnológica, ofertando às empresas novas possibilidades de serviços e produtos, em uma constelação organizacional enxuta e flexível, como afirmam Coutinho et al. (1995) e Larangeira (1998) (AQUILES, 2011, p. 84).

 

O setor de telecomunicações brasileiro tem mostrado nos últimos anos grandes mudanças e um crescente alinhamento com outros setores da indústria no desenvolvimento de novos produtos e serviços. O aumento da concorrência e das possibilidades tecnológicas existentes, tem mostrado um dinamismo maior no segmento com o lançamento de produtos inovadores e relevantes para o consumidor. (SALES; CANCIGLIERI JUNIOR, 2011, p. 1).

 

Em um ambiente dinâmico, com alto valor agregado, ciclo de vida de produtos reduzido e, tanto concorrência quanto consumidores agressivos em atingir seus objetivos, é natural que o volume de decisões a ser tomada dentro do ciclo de vida de um projeto de desenvolvimento de produto seja alto, e ter um fluxo pré-definido de validação de etapas e tomada de decisão agrega valor ao processo, assim como reduz seus riscos. (SALES; CANCIGLIERI JUNIOR, 2011, p. 3).

 

Hoje, empresas de telefonia vendem uma série de produtos como telefones fixos, celulares, acesso à internet de alta velocidade, softwares para instalação no computador do cliente, serviços de assistência técnica para computadores, acesso a TV por assinatura entre outros, ou seja, uma extensa linha de famílias de produtos e serviços que agregam valor ao consumidor. (SALES; CANCIGLIERI JUNIOR, 2011, p. 3).

 

Segundo Gaffard e Krafft, (2000) a partir dessa ruptura tecnológica, um novo setor de telecomunicações foi estruturado com a abertura e convergência dos mercados possibilitando a presença de empresas multinacionais, e propiciando a entrada de novos atores (empresas de semicondutores, software, internet, comércio eletrônico e multimídia). (SILVEIRA, 2014, p. 94).

 

Fleury e Fleury (2003) destacam que no passado as operadoras de rede eram as grandes inovadoras da cadeia produtiva do setor porque detinham os laboratórios de pesquisa. Atualmente o desenvolvimento tecnológico é essencialmente realizado pelos fornecedores de equipamentos, que passaram a ter seus próprios laboratórios e centros de pesquisa. (SILVEIRA, 2014, p. 94).

 

Após o processo de privatização e da mudança estrutural do setor, as operadoras de rede tornaram-se responsáveis por desenvolver e entregar serviços em um ambiente competitivo e com baixas barreiras de entrada (FRANSMAN, 2002). Com isso as operadoras de redes passaram a concentrar os seus recursos na relação com os mercados, na identificação, desenvolvimento, produção e entrega dos serviços inovadores que geram valor para o cliente. (SILVEIRA, 2014, p. 94; RIVAS; BIANCOLINO, 2013, p. 3).

 

Apesar dessas grandes transformações, para Fleury e Fleury (2003) a competição continua regulamentada pelo governo com o intuito de garantir a melhoria contínua dos serviços prestados ao público. (SILVEIRA, 2014, p. 94; RIVAS; BIANCOLINO, 2013, p. 3).

 

Diante de um panorama de competição, inovação e mudanças tecnológicas, as operadoras de telecomunicações necessitam de respostas rápidas às suas demandas, neste sentido estas organizações devem alinhar seus projetos a um processo de aprendizado organizacional, uma vez que a associação deste aos produtos ou serviços tende a gerar vantagem competitiva e inovação a empresa. (RIVAS; BIANCOLINO, 2013, p. 3).

 

O elevado grau de investimento nesse mercado, que decorre da necessidade de inovação para competir, provoca a diminuição das margens de lucratividade, mas não da receita, visto que a competitividade gera expansão do mercado e o crescimento das vendas. (MOCELIN; BARCELOS, 2012, p. 413).

 

Fleury e Fleury (2003a; 2003b) explicam que a competitividade fez com que as empresas do setor mudassem de uma estratégia baseada em engenharia e produção, em direção a uma estratégia baseada em serviços. Analisando as competências empresariais no setor de telecomunicações, os autores contestam a ideia corrente de que as empresas, no Brasil, estivessem perdendo competências tecnológicas no novo cenário, haja vista que as operadoras de serviços de telecomunicações procuraram: seguir as tendências internacionais, buscando compreender o mercado, na tentativa de diminuir o risco de fracasso de novos serviços; ampliar o escopo de seus serviços, tanto para uso individual quanto corporativo; fidelizar a carteira de clientes; e aumentar a receita e as margens de lucro. (MOCELIN; BARCELOS, 2012, p. 414).

 

As novas competências-chave estão associadas à pesquisa e desenvolvimento de operações, vendas e marketing, conforme a figura 14 (MOCELIN; BARCELOS, 2012, p. 414).

 

Figura 14: Estruturação do Setor de Telecomunicações

Figura 1- Estruturação do mercado de telecomunicações: condições ambientais e decisões políticas governamentais   DA ECONOMIA NACIONAL E   O DO MERCADO INTERNO   AUMENTO DO PODER   REGRAS DE EXPLORAÇÃO   E METAS DE   UNIVERSALIZAÇÃO E   QUALIDADE   CONCESSÕES E   AUTORIZAÇÕES   NOVOS MERCADOS   Ulsrnvo DA   Indústria   FO rnecedores   Investidor   Convergência   tecnol 'ca   Serviços   de rede   Telefonia móv   Serviços Provedores   Banda larga   Televisão a cabo   INTERNACIONALIZA? O u   DA ONOMIA   Mercado   corpor ativo   Mercado   consumidor   INFORMACIONAL PARA O   FLUXO   INFORMAÇAO CAPITAIS   Comércio   Varejo   Agência   regulador   PRIVATIZACÁO   QUEBRA DE MONOPÓLIOS   Z DEMANDA   REESTRUTURAÇÃO REPRIMIDA   Empresas atuam   MUDANÇA TECNOLÓGICA   regionalmente   Telefonia fixa   Implantação,   manutenção e   instalação   Obras e   cabeamento   Pós-venda   DECISÕES POLfTCAS   GOVERNAMENTAIS   Mais de Empresas p m   serviços   a exploraçáo do   Empms. a   região goagráfica de atuaçáo   de   com termologia   1970   1990   (distritmiçáo de   de   2000   Governo FHC   2002   Governo Lula   2005   2008   2010

Fonte: (MOCELIN; BARCELOS, 2012, p. 414)

 

O faturamento obtido pelo mercado mundial de serviços de telecomunicações atingiu a expressiva marca de US$ 2 trilhões em 2008. Além disso, a taxa de crescimento acumulada pelo setor, de 6% em média no período 2000-2008, ficou acima dos 4,9% registrados na expansão econômica mundial para o mesmo período. (ANATEL, 2009 apud AQUILES, 2011, p. 86).