Seção: Tutoriais Operação

 

Redes de Telecom: Rede de Baixo Valor

 

A rentabilidade da operadora é determinada pelo controle estratégico que exerce sobre os seus ativos, bem como a capacidade do operador para obter um prêmio ou valorização adicional para os seus ativos e serviços. Na maioria dos mercados desenvolvidos, possuir uma rede de acesso fixa permite pouco a nenhum controle estratégico. A maior parte das vantagens advindas da propriedade de redes de acesso foi regulamentada, e quaisquer vantagens competitivas herdadas dos antigos monopólios foram efetivamente eliminadas. Isto sugere que o desenho atual do negócio de “rede de baixo valor” atingiu o fim da sua vida útil [2].

 

No entanto, com o advento de redes ópticas passivas com custo competitivo (fibra ao x, ou FTTx), a oportunidade de criar uma “rede de baixo valor” inteiramente nova torna-se mais atraente. A figura a seguir mostra a rápida diminuição de custo esperada em redes ópticas passivas.

 


Figura 1: Custo de Redes Ópticas Passivas

 

Com soluções inteligentes, ao invés de cavar ruas e estradas para implantar redes de fibra óptica, as empresas têm utilizado a infra-estrutura da rede de esgoto existente na França, a infra-estrutura de rede aérea (postes) no Japão, e a implantação de novas redes no Oriente Médio, alternativas essas que permitem redução de custo superior a 50-60%.

 

O cenário econômico das novas redes de acesso de fibra óptica, que favorece a primeira rede implantada para chegar ao cliente final, faz com que a implantação de uma segunda rede para chegar ao mesmo cliente não seja viável, reduzindo os incentivos para esse segundo investimento. Como resultado, a iniciativa cria um monopólio de fato, aumentando significativamente a capacidade da operadora de rede para obter um prêmio ou resultado adicional para os seus serviços.

 

O outro grande impulsionador do crescimento das redes FTTx é a ameaça competitiva das redes de TV a cabo. Em mercados como os dos EUA e dos Países Baixos, as redes FTTx permitem que as  telcos  tenham capacidade para competir de igual para igual com a oferta de serviços triple-play das operadoras de TV a cabo.

 

Isto levou ao aparecimento de estratégias de risco. Por exemplo:

  • A Verizon está fazendo um investimento plurianual superior a US$ 20 bilhões para aumentar a sua rede de fibra óptica nas áreas onde presta serviços.
  • Vários municípios estão implementando operadoras municipais de redes de fibra óptica, destacando-se, entre esses, o de Amsterdã, com o projeto CityNet, e o de Palo Alto, Califórnia, com o projeto para construir uma rede FTTP (Fiber To The Premisses) que chega até o usuário final.
  • No Médio Oriente a maioria dos grandes empreendimentos imobiliários já é entregue com toda a infra-estrutura de redes ópticas.

Nestes casos, pode fazer sentido investir para evitar problemas. Apostar no investimento para implantar uma rede de fibra óptica pode ajudar a livrar-se da “comoditização” das redes de acesso de cobre existentes e criar uma vantagem competitiva sustentável, apesar da tendência de uma regulamentação permissiva. A recente decisão do Federal Communications Commission (FCC – EUA) de abster-se de endossar o princípio de neutralidade das redes incentiva a competição sustentável de infra-estrutura e, como tal, fornece um claro estímulo aos investimentos.

 

Esta decisão pode ser seguida por outros órgãos reguladores interessados em melhorar as credenciais da economia da informação dos seus países. Alguns sinais nesse sentido podem ser visto na posição conciliadora de reguladores dos mercados da Espanha e Alemanha, assim como no Grupo de Reguladores Europeus [3].

 

Mas outros sinais contraditórios indicam que os reguladores europeus poderiam assumir uma postura mais forte contra os investimentos em redes de fibra óptica. Isto forçaria as telcos a separar a sua infra-estrutura de rede de acesso da de rede de serviços, com o objetivo de sair do modelo de concorrência baseada em infra-estrutura de rede para o modelo de concorrência baseada em serviços. Essa tendência poderá transferir a discussão de um modelo de concorrência baseado em “rede de baixo valor” (redes de acesso) para um modelo baseado em “rede de alto valor” (redes de serviços).

 

Tal como evidenciado pelo lobby intenso ocorrido nos EUA em 2006, o cenário onde as telcos adotam uma abordagem do tipo “rede de baixo valor” com acesso aberto às suas redes beneficia as GYM’s. Isso provavelmente conduzirá a uma menor intermediação das telcos, permitindo às GYM’s desenvolver maior controle estratégico de clientes e acumular uma parte maior das receitas.

 

Dois fatores têm contribuído para a reformulação da abordagem de “rede de baixo valor”, através do investimento em redes de acesso de fibra óptica: a crescente demanda por acessos banda larga e por serviços de entretenimento com interatividade. Redes com maior capacidade permitem a oferta de aplicações e serviços mais sofisticados (HDTV, jogos interativos, vídeo on demand, e aumento do uso da tecnologia Web 2.0), e aplicações e serviços mais sofisticados exigem ainda mais largura de banda. Este ciclo apenas começou e, como as gerações mais jovens encontram novos usos para a Internet e como todo o conteúdo passou a ser digitalizado, o crescimento da demanda por banda devem continuar. As operadoras estão se preparando para esse crescimento.  Por exemplo, na Espanha a Telefonica planeja um aumento de dez vezes na disponibilidade comercial de banda larga para os usuários residenciais entre 2006 e 2010 [4].

 

Como a reformulação da abordagem de “rede de baixo valor”, o papel da operadora tradicional (telco) deve ser redefinido. Dois fatores poderosos estão induzindo as telcos a incorporar elementos da estratégia de “rede de alto valor” no novo desenho do seu negócio:

  • Primeiro fator: A fim de obter um retorno sobre os grandes investimentos exigidos para implementar uma rede de acesso totalmente baseada em fibra óptica as telcos devem gerar outras fontes de receita. As receitas da “rede de baixo valor”, tais como voz e conectividade para Internet, não são suficientes, o que leva as telcos  a adicionar serviços de vídeo, tais como IPTV e vídeo on demand.
  • Segundo fator: A disponibilidade de banda praticamente ilimitada abre um vasto leque de oportunidades de negócio. Mais uma vez, as aplicações de vídeo que demandam muita banda são as que têm maior custo. Além disso, estas oportunidades permitem que as telcos entrem no segmentado e personalizado setor de publicidade de TV, o que potencialmente permite inovações no desenho do seu negócio. Entretanto, este processo de aumentar as áreas de atuação do negócio da telco acarreta riscos.

Sem dúvida, a opção pela estratégia de risco que considera a implantação de redes de fibra óptica não é uma panacéia para todas as operadoras. O estímulo para o investimento depende da disponibilidade de alternativas de serviços de banda larga, do apoio do órgão regulador local para a concorrência baseada em infra-estrutura de rede em detrimento da concorrência baseada em serviços, da qualidade da rede de acesso de cobre, da maturidade do uso da Internet da base de clientes, e assim por diante.

 

Quão neutra deve ser a rede?

 

Um dos maiores debates na comunidade de telecomunicações, no passado recente, foi sobre a neutralidade de rede.

 

A neutralidade de rede requer que as redes tratem qualquer tráfego da mesma maneira, independentemente da sua natureza (e-mail versus downloads peer-to-peer) ou da sua origem (grandes empresas de Internet versus pequenos sites Web privados).

 

Tradicionalmente, esta tem sido a forma como a Internet tem operado, baseando-se na filosofia  “first in, first out” e “best effort”. Esta forma de operar agora está sob ameaça e pode mudar para algo radicalmente diferente.

 

A favor da neutralidade de rede: os interessados afirmam que essa neutralidade é uma característica básica da Internet, que tem sido uma meritocracia de conteúdo desde o seu início. Este grupo argumenta que a diferenciação de tráfego com base nas regras do mercado acabará por limitar a escolha do consumidor e resultar em preços mais elevados. Entre os defensores da neutralidade de rede estão grandes empresas Internet como o Google, Amazon, YouTube, e eBay, bem como alguns grupos de defesa dos consumidores.

 

Contra a neutralidade de rede: os interessados argumentam que, a menos que o princípio de neutralidade de rede seja mudado, será desencadeado um processo de aumento crescente da “comoditização” do negócio de redes de telecomunicações. Esse processo irá, por sua vez, limitar os níveis de investimento e dificultar o desenvolvimento de novas tecnologias avançadas de rede necessárias para o futuro. Entre os defensores da regulação do princípio de neutralidade de rede estão as telcos.